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Sunday, 30 May 2010

Beleza na Dor

Numa vida passada fui artista, daqueles que pintam...Sei isto porque há uns tempos atrás tive o privilégio de conhecer um guru avant-garde da mente, uma Louva-Deus,que, a troco de uma lagarta suculenta, me facilitou um vislumbre do passado, através de uma ultra-moderna técnica, chamada regressão a vidas passadas.
Se o fizer sentir melhor, indiquei o esconderijo de uma lagarta da seda, selvagem, em vez de uma das minhas...Tem de compreender que havia algo simplesmente apelativo em descobrir quem havia sido noutra vida, se havia sido tão belo como sou hoje, como borboleta monarca...Humm! Parece que ainda está chocado com a minha atitude mas, se pensar bem, foi um sacrifício em prol do auto-conhecimento e da investigação sobre a beleza. Estou convencido de que assim que se inteirar do que descobri, acabará por compreender, senão perdoar completamente, a minha atitude.
Mas continuando...o que a Louva-Deus me permitiu aceder, fez-me sentir que a minha vida actual, como uma das borboletas mais bonitas do mundo, não é mais do que a recompensa pelo talento com que em tempos fui dotado...e pela vida de sofrimento que tive que levar. De facto, as mais belas obras-primas desse artista – eu próprio, na altura – foram pintadas quando ele – ou será que deveria dizer 'eu'? - vivia dolorosas crises existencialistas.
Ele era obcecado pela beleza, acreditando que a veradeira beleza apenas poderia ser alcançada através da dor. Que fique claro que ele era um artista livre de qualquer dependência de drogas ou álcool, que meramente havia aceite o seu papel como criador de beleza. No início da sua carreira como jovem pintor, dotado de um espírito de sacrífício altruísta e generoso, auto-inflingia-se feridas a fim de poder pôr o seu dom criativo ao serviço de um bem maior. E quão magníficos eram os seus quadros!
Contudo, este método tinha inúmeras desvantagens, já que alguns dos cortes ou outro tipo de feridas, acabavam por atrasar o seu desejo de criar algo delicadamente requintado. Foi então que deu início à reflexão sobre a relação beleza/dor, tendo chegado à conclusão não menos iluminada, de que eram dois lados de uma moeda, tal como os conceitos claro/escuro, yin/yang, guerra/paz, e por aí adiante.
Não foi uma decisão fácil, mas em benefício da beleza e do seu legado artístico para a sua comunidade e mundo inteiro, decidiu que deveria parar de se auto-mutilar e redireccionar a imposição da dor sobre outros seres.
Começou com pequenos animais como hamsters, gradulamente passou para cães e gatos abandonados e, finalmente, humanos...Pobre homem! A angústia mental por que deve ter passado, ao ter de fazer o que fazia, apenas para poder partilhar a beleza com o resto do mundo. Tem, concerteza toda a minha compaixão!
Essa foi uma longa e produtiva vida que levei, lá isso certamente foi.
Antes de ser chamado novamente ao aqui e agora pela admirável Louva-Deus, consegui ainda dar uma espreitadela aos últimos momentos da vida do artista. Deverá, ertamente, ficar satisfeito ao saber que ele faleceu calma e pacificamente durante a noite, possivelmente sonhando com uma ou outra cena que pudesse pintar ao acordar...
Foi com as asas meneando com grande agitação e extático de alegria, que saí da sessão com a Louva-Deus. Estava convencido que o pintor que em tempos fora estaria imortalizado e distinguido num, ou mesmo em vários, museus de renome mundial. Sim, definitivamente havia uma forte conexão entre mim e o tal artista: ambos nos sentíamos atraídos e fascinados pela beleza, acreditando que a dor não é mais do que um pequeno preço a pagar para a conseguir alcançar. Aqui refiro-me, naturalmente, à lagarta mencionada anteriormente. Estou certo que agora já concordará comigo de que fora um inevitável – se bem que vantajoso – sacrifício, não acha?
*
E foi, flutuando, livre de quaisquer preocupações, que a bela borboleta monarca foi surpreendida pelo movimento rápido de uma rede. Estava presa numa leve malha, da qual, por mais que se debatesse, não conseguia libertar-se...
Não muito tempo depois, a borboleta monarca encontrou-se, claustrofobicamente, encerrrada dentro de um frasco transparente, juntamente com uma borboleta rabo-de-andorinha, que soluçava inconsolavelmente.
– Hey! Rabo-de-andorinha, será que podes acalmar um segundo para me dizeres onde diacho estamos? – perguntou Monarca, com um toque de nervosismo na voz.
– Apenas posso supô-lo... – contestou Swallowtail tristemente – uma prima minha também foi apanhada por uma rede e levada para um lugar muito semelhante a este. Por sorte, ela conseguiu escapar! Por isso creio que sei a sorte que nos espera...Antes de conseguir fugir, ela ainda presenciou a tortura por que outras borboletas passaram e as suas agonizantes contorções por que passaram antes de finalmente sucumbirem à morte.

– Que queres dizer com isso? Porque foram assassinadas? - perguntou novamente Monarca, agora com pânico na voz.
– Segundo a minha prima, as suas pequenas cabecitas foram atravessadas por alfinetes não-corrosivos, espetadas num pedaço de esferovite e depois expostas em caixas de vidro...
– Mas que horror! Porque é que alguém nos faria uma coisa dessas? – mas Monarca mal teve tempo de terminar o que dizia quando sentiu um doloroso apertão no corpo que o puxava para fora do frasco.
– ...Para partilhar a nossa beleza com o mundo inteiro!
Foram as últimas palavras ouvidas por Monarca, antes de uma forte dor aguda e mortal lhe trespassar a cabeça.

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