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The Dreadful Dragon Heavy-Foot

( First posted in Portuguese,  in March 2011,  when J. was 5  years old) For my niece, Jessica Long ago when animals used to sp...

Tuesday, 7 December 2010

Voltar a Sentir

           Estás à beira do abismo, entre a vida e a morte, não porque seja aquela a hora marcada muito antes de teres nascido, mas simplesmente porque já não faz mais sentido continuar a viver uma morte em vida.
           Uma das poucas pessoas em quem confias, reconhece os síntomas do anestesiante abandono do querer e propõe submeteres-te a uma experiência extrema, ao fim da qual poderás renascer de novo. É-te pedido apenas uma entrega total por seis dias e um dia. (É óbvio que se trata de uma semana, mas se escolhi dizer seis dias e um dia, por alguma razão será!) Neste momento não tens nada a perder e entregas, sem cláusulas nem requisitos, o teu corpo adormecido a esse alguém e à sua experiência.
Vamos supor que esse alguém em quem se confia és tu e que a morta-em-vida sou eu...
           Durante seis dias fiquei instalada num bunker esquecido no meio de sei lá onde, pois foi de olhos vendados que cheguei até alí.
           Encerrada – num abrigo subterrâneo blindado, à prova de som, com apenas o chão debaixo dos meus pés; se estaria vazio não sei, pois foi-me dito que as vendas deveriam ficar postas ao longo de toda experiência. Em seguida, o espetar no meu corpo, há muito entorpecido, das intravenosas com o soro fisiológico e outros liquidos inibidores da sede, fome – sem nada no estômago, nada haveria a evacuar – e da privação total de sensibilidade da glândula pituitária.
           Seis dias sózinha numa escuridão silênciosa, sem água, sem comida, anestesiada contra todo e qualquer cheiro ou sabor, insensível mesmo ao cheiro e sabor do próprio hálito de uma boca seca.
Afastada do mundo – não que isso importasse pois já há muito tempo que vivia como um fantasma entre os vivos. Por isso duvido que alguém desse por minha falta.
           Os primeiros dois dias foram os piores, tentando encontrar posição naquele chão seco e duro, sem uma parede alguma para eu apoiar as costas. Bom, claro que deveria haver paredes, mas, naquela escuridão imensa, não me apetecia mover-me do sítio onde fora deixada...
           A partir do terceiro dia já não pensava em nada. Os tampões de silicone que tinha nas orelhas abafavam o latejar do meu coração...Ao quarto dia, já não sabia há quanto tempo estava naquele lugar...e adormeci. Dormi o sono de todos aqueles anos de insómnia, enquanto andava moribunda pela vida fora.
           Ao final do sexto dia, os líquidos intravenosos acabaram. Sei disso porque, de repente, deitada sobre o braço sem agulhas, me tornei lucidamente consciente dum cheiro perdido um dia na complexa vastidão da memória: o cheiro da minha própria pele. Sentei-me e levei os meus braços ao nariz, cheirando-me avidamente, deixando-me inebriar por aquele cheiro puro, subtilmente doce e quente ao mesmo tempo...
           Depois daquele primeiro impacto e reencontro com a minha essência primordial, o meu nariz percebeu um outro cheiro – quase imperceptível –, quase que diria que apenas era captado a nível celular, ou através de um sexto sentido qualquer...não conseguia explicar aquela atracção que sentia nessa direcção, aliada à sensação de não estar só.
           Á medida que me aproximava da origem do cheiro, a sensação de estar a ser observada foi sendo substituida por uma forte presença. Eras tu.
           Só pode ter sido o aroma das feromonas que me conduziu até onde estavas. Absorvi o teu cheiro profundamente, sem uma única vez te ter tocado. Nem queria. Era como se estivesse a despertar para o mundo olfactivo.
           Era o começo do sétimo dia. Não sei quanto tempo estive assim a cheirar-te, a cheirar-me, a cheirar-te de novo...Também não interessa, não achas?
           Sei que passado algum tempo me pegaste nas mãos e um arrepio me percorreu pelo corpo todo. Aquele primeiro contacto humano, foi como um despertador que soa fortemente de manhã, para nos acordar para a vida. Levaste as minhas mãos à tua cara e deixaste que os meus dedos tocassem os teus olhos, o nariz, os lábios, a cabeça...Os meus dedos percorreram o teu corpo, explorando cada costela, osso, nódulo, cicatriz e sinal. Era como descobrir um novo mundo, uma nova maneira de percepcionar o mundo através do tacto. O tempo parou naquele momento. Nada mais importava.
           Pouco depois, ou muito tempo depois, não posso precisar, tiraste-me as intravenosas, com uma delicadeza tal, que apenas senti um pequeno ardor à medida que as agulhas deslizavam cá para fora.  Levantaste-me e conduziste-me, em silêncio, para o que só podia ser o exterior do bunker, pois sentia a brisa suave a roçar pela minha pele e a soprar por entre o meu cabelo, o cheiro da terra molhada e uma série de outros cheiros, de plantas e animais, que a pouco e pouco se foram distinguindo uns dos outros, sufocando-me de júbilo olfativo.
           Lentamente as tuas mãos foram subindo pelos meus braços acima, até ao pescoço, acariciando-me as orelhas, antes de lentamente me retirarem o silicone que até então me privara de todo e qualquer som.
           Que assombro! Esse primeiro contacto com os sons foi mais intenso do que alguma vez poderia esperar ou exprimir: a sinfonia das folhas dos ramos oscilando ao vento, o chilrear suave dos pássaros acompanhado do canto alegre das cigarras...Ouvia os sons harmoniosos da grande orquesta duma natureza fértil, desprovida de maestro. O meu espírito estava a ser irresistivelmente arrebatado!
           Por debaixo da venda que me cobriam os olhos, as lágrimas inundávam-me as faces.
           Com a mão no meu cotovelo, conduziste-me para um lugar onde a música se tornava mais refrescante com a queda de águas por entre o que pareciam ser pedras. E sem contar, pegaste-me nas mãos que, com as tuas, se puseram a bailar debaixo dessa água fresca. Que maravilhosa sensação de liberdade!
           Mal acabado o baile, e ainda debaixo de água, senti um objecto redondo e macio entre as mãos que, com a tua ajuda chegou aos meus lábios. O doce aroma que emanava levou-me a mordiscá-lo sem temor Ai, doce néctar suculento, o daquela ameixa! Já não me lembrava da última vez que verdadeiramente apreciara o sabor de uma ameixa, ou de uma qualquer outra fruta. Não há nenhuma maneira poética de descrever o que sentia: era puro prazer, um genuíno orgasmo papilar.
           Se morresse naquele instante, poderia dizer que morreria feliz por finalmente poder dizer que descobrira o que significava viver. Mas a experiência não podia ter acabado ainda, ou meus olhos não continuariam ainda vedados para o mundo.
           A sintonia entre ambos estava perfeitamente alinhada: ainda estava eu a ordenar esses pensamentos, quando senti as tuas mãos, frias ainda, da água, a afagarem-me o cabelo, para depois me retirarem a venda.
           Permaneci uns bons minutos de olhos fechados, sentindo o sopro do vento brando sobre as pálpebras. Temia que ao abri-los, tudo o que experimentara até então se desvanecesse e se revelasse tudo um sonho, uma ilusão, uma mentira...Só quando senti os teus lábios quentes e meigos, primeiro sobre um olho e, depois, sobre o outro, é que me decidi a abri-los lentamente. Estavas alí tão juntinho a mim, que a primeira coisa que vi foram dois sóis cor de mel, olhando-me tão intensamente que com certeza me conseguiam ver a alma...
           Senti-me a desfalecer, mas agarraste-me nos braços e obrigaste-me a desviar o olhar do teu e a olhar em volta. Tanta luz. Tanta cor. Parecia o resultado de uma explosão numa fábrica de tintas, ou da tela dum pintor vanguardista, coberta de esguichos de tintas de todas as cores e tons.
           ...Mas nenhuma dessas maravilhosas cores poderia alguma vez superar a dos teus olhos de mel.
           Caía a noite e ainda estávamos ali, olhando o comovedor pôr do sol que anunciava o final do sétimo dia, e o início de uma nova vida que, desta vez, sim, seria abraçada e respeitada com todo o carinho.
Senti a chegada desse novo começo. Acompanhada? Isso o tempo o dirá. O importante é que estarei acordada para poder apreciar tudo o que puder tocar e observar...saborear todos os cheiros, gostos e cores que se me apresentarem.
           Estarei acordada para nunca mais deixar que tu também passes despercebido.

Voltar a Sentir - 2: As Percentagens do Amor



 
          Seis dias mais um, foram o suficiente para me ensinares a amar a vida, a amar-me a mim mesma...ou a re-aprender a amar-me. Mas depois da euforia do voltar a sentir, caíu sobre mim o assombro da dependência do meu salvador: estava morta para a vida e contigo abracei-a de novo.  Agora, quero-te e não te quero. Quero-te porque me completas. Não te quero pela mesma razão, pois acabas por me fazer sentir menos inteira.
          Não pode ser saudável sentirmo-nos menos do que uma unidade.
          Nunca amei ninguém menos do que 70%, pois isso seria uma pura perda de energia e tempo; nunca amei ninguém mais do que 90%., pois aí acabaría por perder-me na dualidade dessa unidade.
As percentagens, essas, nunca me deixaram mal...
          ...mas, então, se sou um ser a 100%, mas me fazes sentir menos do que Um, quanto de mim terei reservado para a auto-consevação e amor-próprio? Qual seria a percentagem mínima que faria sentido para te amar? 30%? 40%? E a percentagem máxima? Irredutivelmente, um cálculo ainda mais complexo...Alguma percentagem incompleta seria suficiente?
          Por isso me afasto. Não quero ser a meia laranja de ninguém. Tão pouco quero encontrar apenas meia laranja...Quero uma laranja inteirinha e cheiinha de idiosincrasias; uma laranja que também se permita amar-me entre os 70% e os 90%, consoante o seu humor ou o tempo que faz lá fora...Que me ame nem demais, nem de menos.
          Não quero uma laranja que me ame menos de 70%, pois não haverá espaço para a criatividade nem tão pouco quero uma que me ame a 100%, pois aí já não será uma laranja distinta de mim, mas sim uma que passará a viver a minha vida – um sufoco!
          Não te quero, porque me confundes os sentidos. Não te quero porque me fazes perder o Norte. Não te quero, porque sem ti me fazes sentir menos do que uma unidade. Não te quero, porque me arrancas a terra firme debaixo dos pés...
          Não te quero, porque te quero demasiado e por isso, só me resta fugir de ti nesta vida na esperança de que numa outra – ou amanhã – tu também te dês conta que és um ser completo, que também me poderás amar apenas 70% a 90%, dependendo do dia e da disposição com que acordares.
          Quero-te porque me completas. Quero-te porque apesar de me completares, ainda tens espaço para seres tu. Quero-te porque sim.
          Já duas semanas passaram depois daquele banho de vida que me deste. Quinze dias que não te toco, não te oiço, não te vejo; 360 horas privada do teu odor e sabor; 21 600 minutos tentando não pensar em ti, afastando-te do meu pensamento.
          Tenho que fugir para abrir mão de ti, pois só deixando-te livre me poderei libertar completamente.
          Duas laranjas caminhavam de sentidos opostos, quando num colossal choque-crash-bum-bang embateram uma na outra, libertando leves esguichos aromáticos, que se entrelaçaram e se complementaram, qualquer coisa entre 70% a 90%...

Voltar a Sentir 3: Razões para não Amar



         
          Ele sentia-se perdido. Certamente não tinha sido intenção sua alienar uma amiga, uma confidente. Começara por fazer o que fizera com a melhor das intenções: para a salvar de si própria. E as coisas até tinham corrido bem até à altura em que os seus próprios sentimentos deixaram de ser inocentes e o desejo de a amar foi tomando conta de todo o seu ser. Mentira! Pensando bem, o descambar da relação começou bem depois dele sentir que aquela amizade intensa poderia traduzir-se em amor.
            Gostara de sentir o que sentira em relação a ela: um sentimento amoroso que lhe dava um nó no estômago quando sentia o ar quente da sua respiração perto da cara, ou quando o calor do seu corpo se aproximava do seu.

          A ligação, essa, começou a deteriorar-se precisamente na altura em que se apercebera que esse amor poderia ser recíproco...e se Arantza o amava era possível que não fosse tão perfeita como anteriormente a tinha imaginado. Uma mulher perfeita nunca se teria apaixonado por ele...ser indigno de tal amor! Apenas uma mulher com os mesmos defeitos que ele – e não uma cujas qualidades almejava ou que por vezes parecia reconhecer em si mesmo – poderia querer entregar-se a ele de corpo e alma.
          Sim, foi a partir dessa constatação que se verificou a queda gradual do anjo do seu pedestal.

          Arantza desconhecia as razões verdadeiras desse distanciamento incompreensível – e quase ofensivo – por parte do seu 'salvador'. Dôr, raiva, sentimento de abandono...porque tem que se sentir sempre assim tão mal?
          Porque é que os olhos bem abertos, parecem ver menos do que vendados?
          Desespero d'alma. Desejo de calma. Deturpação d' amar...
         Talvez pudesse ter reconhecido essa crescente insegurança da parte dele se não estivesse demasiado ocupada a tentar descobrir em si própria a causa desse distanciamento: quanto mais defeitos encontrava no seu próprio ser, mais raiva acumulava contra o seu homólogo nessa relação complexa e entrelaçada.
          Amor? Qual quê! Se ele a amasse realmente, por certo a teria aceite tal e qual como era – defeitos e qualidades, sem julgamento nem distinção.

          Assim, um novo começo se desenha nas vidas destes dois seres, em tempos unidos pela amizade mas depressa separados pela incapacidade de amar.
          Dôr, raiva, sentimento de abandono...porque tem que se sentir sempre assim tão mal? Porque é que os olhos bem abertos, parecem ver menos do que vendados?

          Um erro de cálculo cítrico: o que à primeira vista pareçia ser uma atracção de 70% a 90%, depressa revelou, nada mais nada menos, do que uma proporção (nunca em síntonia) de uns 30% a 50%. Realmente insuficiente numa relação. Naquela relação.
          Auto-depreciação. Falta de comunicação. Os ingredientes certos para a in-sustentabilidade de uma relação.

          Mesmo em tempos de tempestade emocional, a despensa tem que ser abastecida. Rotinas mundanas que fazem sentir que o nosso mundo não se derrubou por completo. Apenas destroços, algum dia devolvidos ao seu anterior esplendor.
          Estava na secção da fruta. Optaria pela biológica ou pela mais visçosa? Escolha mais do que óbvia: as aparências iludem, sabia isso muito bem.
          – Posso ajudá-la, minha senhora? – perguntou o empregado num tom um tanto ou quanto paternalista.
          – Obrigada, só quero umas laranjas. Eu escolho.
          – Como estava aí parada há mais de cinco minutos...julguei...
          – Cinco minutos? – Arantza parecia confusa, mas recompondo-se acrescentou – Deixe, eu própria escolho as laranjas...
          Isso! Já sabia o que destoava naquele cesto de laranjas suculentas...no meio delas, um pouco maior, pálida e rechonchuda, encontrava-se uma toranja. Destova, mas não parecia deslocada.
          A mente de Arantza fervilhava de tão iluminada que parecia estar. Tinha que sair dali.
          Deixou o cesto onde estava, pegou numa laranja e na toranja e quase que voou para a caixa. Pagou...nem quis receber o troco. De tão rápida que se movia, os seus pés quase que nem tocavam o chão...foi nesse estado de euforia que flutuou até casa do seu 'salvador'.
          Entrou, sem esperar ser convidada...
          – Já sei onde errámos. Sou como esta laranja. Tu esta toranja... – balbuciou ela agitada – Eu pensava que tinha encontrado uma outra laranja que me complementava e esperava que te comportasses como tal, mas evidentemente não és uma laranja e não podias ser o que eu queria que fosses... E se pensares bem, se calhar tu pensavas o mesmo de mim: que eu era uma toranja, o que não sou...Não, escuta, deixa-me terminar...Estava no supermercado a olhar para o cesto de laranjas e de repente...vi esta toranja amarela pálida no meio das laranjas cor de laranja...destoava, claro, mas não estava deslocada, foi o que eu pensei, e nós...
          Não teve tempo de terminar o que ía a dizer, pois de repente, como uma forte chicotada visual, viu uma outra toranja toda aperaltada sentada no sofá, no mesmo sítio onde ela se costumava sentar.
          – Quem é essa to...essa mulher?
 
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