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The Magical Pool

For my goddaughter Lara. A beautiful ray of sunshine. It was very early in the morning and Otto the Octopus was still sound a...

Monday, 22 November 2010

O Porche

Dedico este conto
a alguém muito especial,
que um dia prometeu:
«...tentarei que nunca te pareça que te tiro o rebuçado.»



           Gosto de entrar em lojas de velharias, daquelas em que mal podemos passar pelos corredores estreitos e atafulhados, sem deixar cair alguma coisa. Nunca compro nada, pois gosto do novo, sem história própria – talvez isso se deva ao desejo de que, com o passar do tempo, essas coisas a cheirarem a novo fiquem impregnadas com a minha história.
           Então porquê a atracção pelas lojas de velharias? Boa pergunta. O que falta é uma resposta à altura. Para ser sincera, não faço a mínima ideia porque entro nessas lojas com cheiro a mofo e ar coberto de pó que só me faz espirar.
           Entro à procura de algo que sinto que devo encontrar. O que é, isso já não sei. Sinto que numa dessas lojas escuras e pouco arejadas, repletas de quinquilharia até ao tecto, há algo que espera ser encontrado.
vvv
           Foi num Domingo chuvoso que o encontrei. Tinha ido dar um volta pela parte velha da cidade, para quebrar a monotonia e fugir ao estado de espírito depressivo que ameaçava tomar conta de mim. Munida de umas galochas, feias mas prácticas, um chapéu de cera à pescador, e uma gabardine verde, lá fui eu de passeio, pelas ruas desertas das três da tarde. Só mesmo uma louca para sair naquele tempo ofensivo...
           A loja estava aberta, mas ainda mais cheia com os pedaços e pedacitos de coisas sem par, que costumavam estar no passeio para chamar a atenção dos possíveis clientes, mas que, por motivos óbvios, hoje não haviam sido expostos na rua.
           Não havia ninguém na loja; nem mesmo o dono estava à vista.
           – Boa tarde...vou só dar uma vista de olhos. – disse, mas apenas ouvi o eco da minha voz em resposta.
           Devagarinho, para não derrubar nada, lá fui avançando até ao fundo, examinando cuidadosamente o caos organizado das estantes. Como sempre, buscava, nada em particular.
           Foi num dos cantos que me vi reflectida num enorme espelho antigo, com uma moldura trabalhada, com a tinta doirada a lascar. Provavelmente, teria pertencido a uma boutique chique, mais preocupada em vender do que encontrar o vestido certo para as suas clientes, pois seguramente destorcia, lisonjeiramente, a figura do observador. Apesar da capa de chuva pouco favorecedora, o que via no espelho era uma figura discretamente mais alta e delgada. Se não fosse pelo tamanho, até que consideraria adquiri-lo, para me espevitar o ego pelas manhãs...
           Nesse momento os meus olhos fixam-se num pequeno objecto branco e vermelho, reflectido no espelho, entre livros antigos e vasos Ming de imitação. Voltei-me e dirigi-me para a estante que cobria a parede de uma ponta à outra: Lá estava ele, um porche miniatura, coberto de pó. Soprei e passei a manga da gabardine ainda húmida sobre ele – o que me custou um novo ataque de espirros. Mas valeu a pena, pois a atracção tornou-se ainda mais poderosa. Que preciosidade! No banco de trás havia partituras de música, o que me pareceu serem manuscritos de alguns livros, um copo de cerveja com um rebordo a ouro, requintado, um alfinete de fraldas de bebé, uma bola de futebol, e esquecida no chão, uma bolsa de serapilheira atada em forma de ananás...
           Não sei porque me fascinava tanto aquele carro em miniatura.
           Sou daquelas pseudo-feministas que nunca se deram ao trabalho de aprender a mudar um pneu furado, nunca possuiram um cabo para ligar a bateria (tendo, por isso que activar o seguro sempre que um pneu está em baixo ou a bateria falha), e que se enerva quando a luz da gasolina se acende...Outra vez?!? Porque será que o carro não anda a ar?
vvv
           Tinha que ser meu...Por isso, voltei à bancada coberta com um montão de coisas dispostas umas sobre as outras e que também servia de caixa, e chamei de novo:
           – Se faz favor...Está alguém? Queria pagar uma coisa...Oi! Está alguém?
           Já estava a pensar se deixaria um bilhete a dizer que havia levado o carro e que passaria no dia seguinte a pagá-lo quando, de lado nenhum, apareceu uma mulher com ar de ser muito velha, mas com um brilho radiante nos olhos.
           – Estou aqui, minha filha...Ah, vejo que encontraste o carro de rali. Faz tempos que o tenho...possivelmente há quase três décadas, e ninguém se interessou por ele. Deve ser para o seu filhote...?
           – Não tenho filhos. – retorqui, um pouco arisca. Porque será que toda a gente partia do princípio que já deveria ter filhos?
           – Não? – a velha parecia surpreendida. – Com a sua idade já tinha tido seis.
           – Pois, os tempos eram outros...Quanto quer pelo carro?
           – Mas se não é para o seu filho...
           – Já lhe disse que não tenho filhos!
           – ...porque o quer levar?
           A minha paciência estava por um fio, mas vendo o rosto da mulher fechar-se um pouco e receando que acabasse por dizer que o carro não estava à venda, mudei o tom e acrescentei:
           – É para mim. Há anos que entro neste tipo de lojas à procura de algo...nunca soube o que buscava, até hoje. Quando vi o porche empoeirado, reflectido no espelho lá do fundo, soube que era isto que desejava. – e depois um pouco mais envergonhada pela confidência, perguntei – Faz sentido?
           – Sim, minha filha, faz todo o sentido. Um dia descobrirás porquê; nem sempre as coisas fazem sentido no momento em que acontecem, só depois em retrospectiva...Leve-o. São cinco euros.
           – Tem a certeza? – parecia-me pouco.
           – Nem lhe pediria nada por ele, mas creio que não aceitasse levá-lo sem pagar.
           – Tem razão. Obrigada.
vvv
           Essa paixão pela miniatura não tinha justificação possível. Onde a guardarei? Seguramente, nalgum lugar de destaque, onde seria a última coisa a ver ao deitar e a primeira ao levantar...Onde mais, senão na mesinha de cabeceira! Sim, ali ficaria até pelo menos a curiosidade, quase obsessiva, da sua aparente importância fosse satisfeita.
           O carro foi, naturalmente, excrutinado por todos os ângulos e mais duas características foram descobertas: primeiro, todos os objectos, à excepção da bolsa de serapilheira que rolava de um lado para o outro, acompanhando os movimentos do carro, estavam bem presos – com cola, talvez – ao interior do carro. A segunda curiosidade que havia passado despercebida no início, foi a chave na ignição, como se esperasse que alguém a rodasse e pussesse o carro em andamento. Mas para onde iriam? Isso até seria divertido saber-se...
           No entanto, já são horas de dormir. Estico o braço para carregar no interruptor do candeeiro e, para meu espanto, oiço-me dizer 'Até amanhã!', por debaixo da respiração sonolenta.
vvv
           – Deve ter-se enganado na loja, menina. Ontem foi Domingo e nunca abrimos aos Domingos. Estivemos fechados o dia todo e...não, não trabalha aqui nenhuma senhora de idade. Este é o meu negócio e trabalho sozinho.
           – Mas olhe bem para esta miniatura, não a tinha aqui na loja? Estava na prateleira à frente daquele espelho enorme que tem lá no fundo...
           O dono da loja das quinquilharias já demonstrava sinais de estar a perder a paciência.
           – Minha senhora, como lhe disse há pouco, não comprou esse carro aqui...não há nenhuma idosa a trabalhar neste estabelecimento...nem nenhum espelho no fundo da loja! Se quiser, faça o obséquio de ir confirmar por si mesma.
           – Sim, acho que o farei, se não se importa.
           E lá fui eu até ao fundo, espantada por a loja realmente parecer diferente e ainda mais surpreendida ao descobrir que o espelho doirado não fazia parte do recheio.
           Com um muito obrigada envergonhado por ter passado por louca, saí da loja um tanto ou quanto confusa e desorientada.
           Ao chegar a casa dirigi-me imediatamente ao quarto, peguei nas pinças mais fininhas que encontrei e, com um cuidado redobrado, abri a única porta do carro que parecia abrir – a do condutor – e concentrei-me em agarrar a pequena bolsa de serapilheira em forma de ananás.
           – Nem penses que vou desistir assim tão facilmente – bolas, lá estava eu a falar sozinha. Qualquer dia tinha que me internar a mim mesma.
           Bastou um pouco mais de esforço e agilidade para que o ananás estivesse cá fora.
           Cuidadosamente, abro a bolsita e espreito para dentro. Que desilusão! Parecia estar vazia...Já quase havia decidido devolver a bolsa ao seu lugar, quando vejo um rolito de papel cor de serapilheira – por isso não o tinha visto logo! De novo, recorro à pinça com extremo cuidado, não fosse o papel rasgar-se...
           As minhas mãos suadas tremiam. Definitivamente não podia tocar no pedaço de papel sem antes lavar as mãos...
           Com jeitinho e novamente de pinça em punho, desenrolo-o e qual não é o meu espanto quando vejo aparecem paralvras minúsculas em forma de frase.
           Onde está a malvada lupa? Nunca foi utilizada – uma das tais coisas que não necessitamos mas que compramos porque estão a um preço a que não resistimos! Só que agora, que é precisa...não aparece!
           Quase uma hora perdida à procura da dita cuja, até que finalmente aparece – como que por gozo – num dos primeiros sítios onde havia procurado. Grrrrrrrrrrrr! É sempre assim. Parece que os objectos têm vida própria e que, para quebrar a monotonia, se divertem a jogar ao esconde-esconde.
           Agora, de lupa na mão, dirijo-me à escrivaninha do quarto onde havia deixado a bolsa de serapilheira e o pedaço minúsculo de papel onde se lia...
          
Se te encontras a ler esta mensagem, é porque, por alguma razão, perdeste o rumo e decidiste abandonar o que foste e o que te fez aquilo que és hoje. Tu és o porche de corridas, o pai, o compositor, o escritor, o empresário, o dirigente de clube desportivo, e tudo o mais que fizeste. Não precisas de regressar ao carro se não te apetece, pois tu és o carro. És o carro e tudo o que se encontra dentro dele...mas não és apenas isso: usa o que já és para descobrires novos talentos...e verás que podes ser muito mais do que isso.

Que mensagem linda. Mas para quem seria?
vvv
           No Domingo seguinte, chuvoso, para não variar(!), lá fui eu decidida a falar de novo com o dono da loja de velharias, mas a porta estava fechada.
           – Ai, não, isso é que não! Não fiz todo este caminho para nada.
           E com nova assertividade bati novamente na porta.
           Pum-pum-pum. Nada. Outra vez. Pum-pum-pum. E mais uma vez. Pum-pum-pum.
           Obstinada, teria continuado a tarde toda, se não fosse a porta abrir-se...
           Mesmo à minha frente, a velhota dos olhos brilhantes surge com um sorriso acolhedor.
           – Entre, minha filha. Estava à sua espera.
           – Mas como...?
           – Tire essa gabardine e siga-me. Vamos beber um chazinho quente enquanto falamos. Temos muito que conversar.
           Sem contestar, lá segui a velhota, pasmada por ver que a loja estava de novo diferente, igual à primeira vez que lá tinha estado. Passámos pelos fundos – lá estava o espelho majestoso – e entrámos numa cozinha pequena e acolhedora, toda em tons de azul marinho e branco, fazendo lembrar o mar.
           – Então, diga-me lá, o que a trás por cá?
           Contei a história sobre a loja que era e não era, do porche branco e vermelho, da nota dentro do saco de serapilheira em forma de ananás, da sensação de que tudo aquilo não me era destinado mas sim a outro alguém, que provavelmente estava à espera de tudo aquilo.
           – És muito perspicaz...No início, quase que duvidei que seria capaz de levar a cabo esta missão.
           – Que missão? Não entendo mesmo nada do que me está a dizer.
           – Acredita em Anjos da Guarda, minha querida?
           – Sou Agnóstica...
           – Logo vi. Talvez por isso sejas a pessoa ideal para manter uma mente aberta e desinteressada....Bom – continuou a velhota –, digamos que sou o guia espiritual de alguém que, mais do que nunca, precisa de ser iluminado. Neste momento parece ter-se desconectado com a sua verdadeira essência. É importante que o encontre e lhe transmita a mensagem que encontrou...
           – Mas, como? Se não sei quem ele é?
           – Isso, minha filha, terá que descobrir por si mesma. Aos guias só nos é permitido dar um empurrãozinho em direcção à auto-descoberta; o livre arbítrio é que comanda os humanos. Por isso terá que ser você a encontrá-lo e a entregar-lhe a mensagem...Mas já se faz tarde. Adeus...e obrigada pela sua ajuda.
           E sem saber como, lá estava eu de novo na rua, com a porta fechada como se nunca tivesse sido aberta. Será que tudo aquilo havia acontecido mesmo ou seria apenas uma mera partida delusional da minha mente. Será que para além de falar sozinha também já começava a delirar?
           O carro que segurava na mão lembrou-me que a situação era bem real. Mas como iria descobrir o dono da mensagem?

           Busca-se dono de carro de rali, branco e vermelho, pai, compositor, escritor, empresário, envolvido no desporto, que se perdeu no bulício da vida. Mensagem importante. Favor contactar caixa postal …
          
           Parece suficientemente bom. Agora basta publicar no jornal, todos os fins de semana, cruzar os dedos, e esperar que a pessoa a quem é dirigido se reconheça no pequeno anúncio e me contacte.
           Também será bom surfar a Net para ver se se encontra algo relacionado com ralis e com a matrícula, um pouco sui generis, que aparece no porche: X0X0X0 – abraços e beijos? Sem esquecer o autocolante engraçado colado no vidro de trás:

Podes ultrapassar-me, pois estou com fome de viver!

vvv
           Foi mais fácil do que se podia imaginar. De facto a Net é um mundo onde se encontra de tudo. Consegui o nome do condutor, descobri que vive numa terra pequena onde todo o mundo conhece toda a gente. Não será, com certeza, difícil de dar com ele. O anúncio, esse, deixo-o mais este fim-de-semana e no próximo e, quer tenha sido contactada quer não, vou até à Vila do Monte...

           – Boa tarde. É o Sr. Luíz, o condutor de ralis?
           – Não sou condutor de ralis.
           – Mas já foi, não?
           – Miúda, deixe-se de rodeios e diga lá o que deseja.
           – É assim, tenho algo para o Sr. Luíz e só para ele, mais ninguém. Algo que talvez o possa ajudar.
           – Eu sou Luíz...Mas, e você? Quem é?
           – Está aqui o meu cartão e o carro miniatura que encontrei numa loja de velharias com uma mensagem para si. Contacte-me se precisar de alguma informação, não que lhe possa dizer muito mais do que já lhe disse. Bom, não lhe tomo mais o seu tempo.
           – Espere, não se vá já embora.
           Muito sucintamente e um pouco constrangida, lá lhe contei como o carro tinha vindo parar às minhas mãos, como tinha descoberto a mensagem no saco de serapilheira, o anúncio do jornal e como finalmente havia descoberto onde morava...Claro que, para não ser tomada por louca, omiti a parte da velhota dos olhos brilhantes e da loja que nem sempre era o que parecia.
           – Não quero nada de si, apenas quero entregar-lhe o carro e a mensagem que julgo pertencer-lhe. A partir daí é consigo, pode guardá-lo, oferecê-lo a alguém, o que lhe apetecer...Mas – acrescentei – se de facto a mensagem fizer algum sentido para si, não posso negar que sinto certa curiosidade em saber como isso ajuda...nem que leve três meses ou três anos a contactar-me, pois a situação é, de facto, única.
vvv
           Ano e meio passado desde que havia recebido o 'presente', e que estranhamente o havia feito reencontrar o caminho, Luíz encontrava-se sentado à secretária, rodando entre os dedos o cartão de visita que aquela estranha um dia lhe havia dado.
           Alguma vez se decidiria a confiar numa desconhecida? Deveria telefonar-lhe? Ir vê-la pessoalmente? Ou simplesmente rasgar o cartão? Eis o dilema com que se debatia.

           No mesmo dia, à mesma hora, exactamente um ano e meio depois de ter visitado o Sr. Luíz, Paulina também estava perdida em pensamentos. Perguntava-se como tudo teria evoluído para aquele homem que apenas vira uma vez. Se a mensagem havia feito algum sentido para ele, se havia actuado sobre ela ou se a havia deitado fora...
           Por mais curiosa que estivesse, não tinha mais remédio do que respeitar a sua escolha. Contudo, no fundo, no fundo, desejava muito ser contactada e tentar dar um sentido a tudo o que lhe havia acontecido...lhes tinha acontecido.

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