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The Magical Pool

For my goddaughter Lara. A beautiful ray of sunshine. It was very early in the morning and Otto the Octopus was still sound a...

Sunday, 21 November 2010

Cada um na Sua Cama

           – Então Patajeca, já sabes quem chega hoje? – pergunta o Avô Asa-Para-Toda-A-Obra, enquanto muda as pilhas do piano portátil da neta.
           – Claro, a Mamã já me disse. Hoje chega a Tia Pataluxa, que anda sempre de avião.
           – Ha, ha...é essa mesma. Só que hoje não vem de avião.
           – Não?
           – Não, a Avó Patachoca foi ao Norte buscá-la...
           – Qual Norte, Avô?
           – Ao Norte de Portugal, que é onde a tua tia está agora a trabalhar. Por acaso até se pode ir lá de avião, mas como não é assim tão longe, pode-se ir perfeitamente de combóio ou de carro.
           – E a Avó Patachoca foi lá de carro?
           – Não, Patajeca, ela foi de combóio, e agora voltam as duas no carro da tua Tia.
           – Ai é? Então porquê?
           – Então a tua mãe não te contou essa parte, Patajeca patareca?
           O Avô Asa-Para-Toda-A-Obra gostava de arreliar a neta e ela a ele. A bem da verdade, andavam quase sempre às turras, mas divertiam-se assim.
           – Grrrrrrrrr! – desde que entrara para a escolinha, Patajeca havia aprendido muitas coisas novas e interessantes, outras um tanto ou quanto tontas – embora engraçadas – como o rosnar para fingir que já não estava a gostar da brincadeira...Vai-se lá entender o que se passa na cabeça de uma patinha em crescimento.
           – ...Se calhar até contou mas eu já não me lembro. – acrescentou entre bico.
           – Ha, ha... – riu-se o Avô Asa-Para-Toda-A-Obra divertido – Vêm no carro da tua tia porque ela partiu a asa esquerda e não pode ficar lá no Norte sózinha. E como está com a asa ao peito, também não pode ser ela a conduzir. Por isso a tua Avó foi lá buscá-la.
           – Hummm! – fez Patajeca, franzindo o nariz – Que complicação.
           – Não é nada complicado. Eu explico. É assim...
           Mas antes que pudesse continuar com a explicação, ouviram buzinar lá fora. A Avó Patachoca e a Tia Pataluxa acabavam de chegar.
           Uma curiosidade da família da Avó Patachoca é que, de cada vez que se vai às compras ou se tem o carro cheio de malas, caixas e saquitos, buzinam e dão tudo pela janela da cozinha, que embora não seja muito baixa, dá perfeitamente para passar as coisas para dentro de casa. É mais práctico e poupa-se tempo...
           – Olá! Então, fizeram boa viagem? – pergunta o Avô Asa-Para-Toda-A-Obra, enquanto recebe uma das malas.
           – Sim, correu tudo bem. Não apanhámos muito movimento e só choveu um pouco quando saímos de lá. – responde a Avó Patachoca.
           – Adivinha quem passou cá a tarde e vai jantar connosco?
           Mas a Patajeca estava tão excitada por ver a Avó que nem a deixou adivinhar.
           – Sou eu Vó, sou eu! A Mamã também vem jantar.
l
           Depois dos abraços e beijinhos – claro que a Tia Pataluxa só pôde dar e receber meios abraços por causa da asita partida – foram para o quarto que antes havia pertencido à Pataluxa e à Patisoca e que agora pertencia à Patanita, a irmã mais nova.
           A Madrinha Patanita, que entretanto tinha chegado do trabalho, olhou para a irmã e disse:
           – Olha, a Patajeca dormiu na tua cama apenas uma noite, por isso não mudámos os lençóis. Não te importas, pois não?
           – What? Did you sleep in my bed, Patajeca?1
           Lá estava a Tia Pataluxa a falar Inglês. Sempre falou com a Patajeca em Inglês, aliás, desde que nascera. A Tia era professora de inglês e dizia que, no futuro, todas as crianças falariam a sua língua materna mais o Inglês, para além de saberem usar computadores como profissionais. Por isso insistia em falar-lhe só naquela língua estrangeira. E, apesar de não se verem assim tantas vezes, a Patajeca já entendia muita coisa! Também não era de estranhar pois, para além da prática ao ter que se esforçar por entender a Tia, a Patajeca era uma patinha inteligente e também já tinha aulas de Inglês na escolinha, com a Miss Pataresa.
           Por essas razões todas, a Patajeca olhou para a tia com um sorriso meio traquina meio envergonhado, e respondeu:
           – Yes.
           – Oh, you did, did you? And did Mommy Patisoca sleep with you in my bed, too?
           – No! - respondeu Patajeca, virando-se agora para a avó a pedir ajuda. – Diz-lhe que só durmo com a Mamã quando estou em casa.
           – Pataluxa, Patajeca says that she only sleeps with her mommy at home. – traduziu a Avó Patachoca.
           Depois, virando-se para a neta, pergunta com a cara um pouco mais séria:
           – Então, Paixão-do-Meu-Coração, em casa não tens a tua própria caminha, o teu próprio quarto?
           – Oh, Vó, claro que tenho! Já o viste muitas vezes...
           – Sim, mas agora estás a dizer que dormes com a tua mãe...
           – ...Só quando o papá trabalha de noite. Assim dormimos as duas mais quentinhas.
           – Mas, Patajeca, o Papá Patunes trabalha muitas vezes de noite...e tu já és crescidinha, já andas na escolinha e tudo. Não gostas do teu quarto, é isso?
           – Nãaaao! – disse Patajeca, deitando as mãos à cabeça – um gesto de desespero muito típico nela. Será que a Avó já não se lembrava de como era o quarto dela?
           – Já estiveste tantas vezes no meu quarto...sabes bem que é muito bonito, com muitos brinquedos e uma cama super confortável!
           – Lembro-me bem de como é o teu quartito...o que não entendo é porque uma patinha da tua idade ainda dorme na cama da mãe.
           – Oh!
           – Não é 'Oh!', Patajeca...estou a falar muito a sério. Qualquer dias passas para a escola dos meninos crescidos e não podes, ainda, estar a dormir com a Mamã. Assim vão dizer que és uma bébé.
           Ao ouvir isso, a Patajeca inclinou a cabeça um pouco para a direita e juntou as sobrancelhas como se estivesse a pensar bem no que lhe estavam a dizer. Até que fazia sentido...
           – Além do mais, – acrescentou a Avó Patachoca – o teu quarto tem que crescer contigo, para ser sempre o teu cantinho especial, um lugar onde te sintas bem a estudar, a ler, a brincar...e para poderes montar lá a tua tenda para quando as tuas primas te vierem visitar e poderem brincar às casinhas.
           Patajeca continuava a ouvir com atençao, por isso a Avó Patachoca continuou com o seu discurso.
           – ...À medida que fores crescendo, vais ter que comprar uma cama maior para caberes nela, mas o teu quarto será sempre especial.
           – Pode ser...Mas não me posso mudar para lá já-já, senão, a Mamã fica triste.
           – Senta-te aqui no meu colo, minha patinha linda...Fazemos assim, hoje quando a Mamã chegar para o jantar, perguntamos-lhe o que ela pensa sobre tudo isto. Concordas?
           – Hummmm...OK, concordo. – disse Patajeca hesitando um pouco.
l
           À hora de jantar e depois da Tia Pataluxa contar mais uma vez como tinha escorregado no chão da cozinha, voado sem controlo até ao corredor para finalmente embater na porta do armário, deslocando assim o ombro para debaixo da asa onde se encontra o sovaco, a conversa mudou para o tema de quartos e camas.
           – Patisoca, – começou a Avó Patachoca – hoje quando cheguei do Norte tive uma conversa surpreendente com a tua Patajeca.
           – Ai, sim? Falaram sobre o quê?
           – Sobre ela ainda dormir na tua cama. Claro que eu estranhei que uma menina tão grande ainda dormisse com a mãe, e até pensei que fosse por ela não gostar do quarto...
           – ...Mas eu disse logo que não era isso. – interrompeu a Patajeca. – O meu quarto é muito bonito.
           – Yes, that's true...So, my Gorgeous, tell Mommy why you still sleep with her.
           Cada vez que a Tia Pataluxa falava, Patajeca tinha que concentrar-se um pouco mais. Mas apesar de não entender todas as palavras, conseguia perceber o que a Tia estava a dizer- bem, mais ou menos...
           – Eu disse, – continuou Patajeca, olhando a Tia-quase-estrangeira de soslaio – que era porque dormíamos mais quentinhas juntas...e porque a Mamã ficaria triste por dormir sózinha.
           Era o momento da verdade, e Patisoca viu que tinha que aproveitar esse momento para ajudar a filha a dar mais um passo para se tornar um pouco mais crescida e independente.
           – Patajeca, é claro que gosto muito de dormir contigo e tu serás sempre a minha bébé apesar de estares a crescer tão depressa. Sabes, na realidade já há uns tempos que andava a pensar que devias mudar para o teu quartinho, que é super confortável e está tão bem decorado; tens todas as tuas bonecas amigas a dormirem sózinhas - acho que elas ficariam muito feliz por te ter lá com elas...É verdade que és a minha bébé, mas também sabes que já és grandinha: já andas na escolinha e tudo!
           – É verdade. – disse a Patajeca – Mas, não ficas triste se eu me mudar para o quarto do lado?
           – Claro que não. Vais continuar à mesma tão pertinho de mim e do Papá Patunes, que nenhuma de nós vai sentir a diferênça.
           – És capaz de ter razão, Mamã.
           – Além do que, o beijinho e o abraço ao deitar e ao acordar, esses vão estar sempre aí. Boa?
           – Boa!
           – Então, quer dizer que te mudas hoje para o teu quartinho? Olha que a cama já está feita há uns tempos. Está à espera que voltes para lá definitivamente.
           Patajeca demonstra um pequeno momento de hesitação mas, logo de seguida, diz com uma voz mais confiante:
           – Pode ser...Hoje mudo-me para o quarto do lado. Para o meu quarto.
           E, de repente, à mesa de jantar, já se estava a falar de outras coisas: do tempo chuvoso, dos amigos da escola da Patajeca, de futebol, de livros, de política...enfim, de tudo e mais alguma coisa.
l
           No dia seguinte, estava ainda a Avó Patachoca a dormir por causa do cansaço da viagem do dia anterior, quando o telefone toca. Quem atende é o Avô Asa-Para-Toda-A-Obra; do outro lado da linha, encontra-se a Patajeca, toda excitada a querer falar com a sua avó.
           – Porque não me dizes o que queres da vóvó, que eu depois dou-lhe o recado? É que ela está muito cansada da viagem que fez ontem, do Norte até Lisboa...
           – Não, não pode ser. Preciso muito, muito falar com a vóvó antes de ir para a escolinha. É um assunto muuuuuuuiiiiito importante.
           E como o Avô Asa-Para-Toda-A-Obra quase nunca consegue dizer que não à neta, lá vai acordar a mulher.
           – Sim, Patajeca – diz a Avó Patachoca com um quack um pouco rouco de sono. – que me queres dizer que é tão urgente?
           – Sabes Vó, ontem dormi sózinha na minha cama – bem, sózinha, sózinha não...dormi com uma das minhas bonecas...e dormi muito bem. Logo à noite vou escrever isso no meu livro da positividade!
           – Fazes muito bem, minha lindoquinha. E, parabéns! Estou muito orgulhosa de ti.
           – Também eu. Bom, eu também estou orgulhosa de mim...
           Como diz a Avó Patachoca, 'cada um na sua cama!'

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