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The Dreadful Dragon Heavy-Foot

( First posted in Portuguese,  in March 2011,  when J. was 5  years old) For my niece, Jessica Long ago when animals used to sp...

Thursday, 10 June 2010

Voltar a Sentir (1/3)

Estás à beira do abismo, entre a vida e a morte, não porque seja aquela a hora marcada muito antes de teres nascido, mas simplesmente porque já não faz mais sentido continuar a viver uma morte em vida.
Uma das poucas pessoas em quem confias, reconhece os síntomas do anestesiante abandono do querer e propõe submeteres-te a uma experiência extrema, ao fim da qual poderás renascer de novo. É-te pedido apenas uma entrega total por seis dias e um dia. (É óbvio que se trata de uma semana, mas se escolhi dizer seis dias e um dia, por alguma razão será!) Neste momento não tens nada a perder e entregas, sem cláusulas nem requisitos, o teu corpo adormecido a esse alguém e à sua experiência.
Vamos supor que esse alguém em quem se confia és tu e que a morta-em-vida sou eu...
«
Durante seis dias fiquei instalada num bunker esquecido no meio de sei lá onde, pois foi de olhos vendados que cheguei até alí.
Encerrada – num abrigo subterrâneo blindado, à prova de som, com apenas o chão debaixo dos meus pés; se estaria vazio não sei, pois foi-me dito que as vendas deveriam ficar postas ao longo de toda experiência. Em seguida, o espetar no meu corpo, há muito entorpecido, das intravenosas com o soro fisiológico e outros liquidos inibidores da sede, fome – sem nada no estômago, nada haveria a evacuar – e da privação total de sensibilidade da glândula pituitária.
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Seis dias sózinha numa escuridão silênciosa, sem água, sem comida, anestesiada contra todo e qualquer cheiro ou sabor, insensível mesmo ao cheiro e sabor do próprio hálito de uma boca seca.
Afastada do mundo – não que isso importasse pois já há muito tempo que vivia como um fantasma entre os vivos. Por isso duvido que alguém desse por minha falta.
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Os primeiros dois dias foram os piores, tentando encontrar posição naquele chão seco e duro, sem uma parede alguma para eu apoiar as costas. Bom, claro que deveria haver paredes, mas, naquela escuridão imensa, não me apetecia mover-me do sítio onde fora deixada...
A partir do terceiro dia já não pensava em nada. Os tampões de silicone que tinha nas orelhas abafavam o latejar do meu coração...Ao quarto dia, já não sabia há quanto tempo estava naquele lugar...e adormeci. Dormi o sono de todos aqueles anos de insómnia, enquanto andava moribunda pela vida fora.
«
Ao final do sexto dia, os líquidos intravenosos acabaram. Sei disso porque, de repente, deitada sobre o braço sem agulhas, me tornei lucidamente consciente dum cheiro perdido um dia na complexa vastidão da memória: o cheiro da minha própria pele. Sentei-me e levei os meus braços ao nariz, cheirando-me avidamente, deixando-me inebriar por aquele cheiro puro, subtilmente doce e quente ao mesmo tempo...
Depois daquele primeiro impacto e reencontro com a minha essência primordial, o meu nariz percebeu um outro cheiro – quase imperceptível –, quase que diria que apenas era captado a nível celular, ou através de um sexto sentido qualquer...não conseguia explicar aquela atracção que sentia nessa direcção, aliada à sensação de não estar só.
Á medida que me aproximava da origem do cheiro, a sensação de estar a ser observada foi sendo substituida por uma forte presença. Eras tu.
Só pode ter sido o aroma das feromonas que me conduziu até onde estavas. Absorvi o teu cheiro profundamente, sem uma única vez te ter tocado. Nem queria. Era como se estivesse a despertar para o mundo olfactivo.
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Era o começo do sétimo dia. Não sei quanto tempo estive assim a cheirar-te, a cheirar-me, a cheirar-te de novo...Também não interessa, não achas?
Sei que passado algum tempo me pegaste nas mãos e um arrepio me percorreu pelo corpo todo. Aquele primeiro contacto humano, foi como um despertador que soa fortemente de manhã, para nos acordar para a vida. Levaste as minhas mãos à tua cara e deixaste que os meus dedos tocassem os teus olhos, o nariz, os lábios, a cabeça...Os meus dedos percorreram o teu corpo, explorando cada costela, osso, nódulo, cicatriz e sinal. Era como descobrir um novo mundo, uma nova maneira de percepcionar o mundo através do tacto. O tempo parou naquele momento. Nada mais importava.
«
Pouco depois, ou muito tempo depois, não posso precisar, tiraste-me as intravenosas, com uma delicadeza tal, que apenas senti um pequeno ardor à medida que as agulhas deslizavam cá para fora.
Levantaste-me e conduziste-me, em silêncio, para o que só podia ser o exterior do bunker, pois sentia a brisa suave a roçar pela minha pele e a soprar por entre o meu cabelo, o cheiro da terra molhada e uma série de outros cheiros, de plantas e animais, que a pouco e pouco se foram distinguindo uns dos outros, sufocando-me de júbilo olfativo.
Lentamente as tuas mãos foram subindo pelos meus braços acima, até ao pescoço, acariciando-me as orelhas, antes de lentamente me retirarem o silicone que até então me privara de todo e qualquer som.
Que assombro! Esse primeiro contacto com os sons foi mais intenso do que alguma vez poderia esperar ou exprimir: a sinfonia das folhas dos ramos oscilando ao vento, o chilrear suave dos pássaros acompanhado do canto alegre das cigarras...Ouvia os sons harmoniosos da grande orquesta duma natureza fértil, desprovida de maestro. O meu espírito estava a ser irresistivelmente arrebatado!
Por debaixo da venda que me cobriam os olhos, as lágrimas inundávam-me as faces.
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Com a mão no meu cotovelo, conduziste-me para um lugar onde a música se tornava mais refrescante com a queda de águas por entre o que pareciam ser pedras. E sem contar, pegaste-me nas mãos que, com as tuas, se puseram a bailar debaixo dessa água fresca. Que maravilhosa sensação de liberdade!
Mal acabado o baile, e ainda debaixo de água, senti um objecto redondo e macio entre as mãos que, com a tua ajuda chegou aos meus lábios. O doce aroma que emanava levou-me a mordiscá-lo sem temor Ai, doce néctar suculento, o daquela ameixa! Já não me lembrava da última vez que verdadeiramente apreciara o sabor de uma ameixa, ou de uma qualquer outra fruta. Não há nenhuma maneira poética de descrever o que sentia: era puro prazer, um genuíno orgasmo papilar.
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Se morresse naquele instante, poderia dizer que morreria feliz por finalmente poder dizer que descobrira o que significava viver. Mas a experiência não podia ter acabado ainda, ou meus olhos não continuariam ainda vedados para o mundo.
A sintonia entre ambos estava perfeitamente alinhada: ainda estava eu a ordenar esses pensamentos, quando senti as tuas mãos, frias ainda, da água, a afagarem-me o cabelo, para depois me retirarem a venda.
Permaneci uns bons minutos de olhos fechados, sentindo o sopro do vento brando sobre as pálpebras. Temia que ao abri-los, tudo o que experimentara até então se desvanecesse e se revelasse tudo um sonho, uma ilusão, uma mentira...Só quando senti os teus lábios quentes e meigos, primeiro sobre um olho e, depois, sobre o outro, é que me decidi a abri-los lentamente. Estavas alí tão juntinho a mim, que a primeira coisa que vi foram dois sóis cor de mel, olhando-me tão intensamente que com certeza me conseguiam ver a alma...
Senti-me a desfalecer, mas agarraste-me nos braços e obrigaste-me a desviar o olhar do teu e a olhar em volta. Tanta luz. Tanta cor. Parecia o resultado de uma explosão numa fábrica de tintas, ou da tela dum pintor vanguardista, coberta de esguichos de tintas de todas as cores e tons.
...Mas nenhuma dessas maravilhosas cores poderia alguma vez superar a dos teus olhos de mel.
«
Caía a noite e ainda estávamos ali, olhando o comovedor pôr do sol que anunciava o final do sétimo dia, e o início de uma nova vida que, desta vez, sim, seria abraçada e respeitada com todo o carinho.
Senti a chegada desse novo começo. Acompanhada? Isso o tempo o dirá. O importante é que estarei acordada para poder apreciar tudo o que puder tocar e observar...saborear todos os cheiros, gostos e cores que se me apresentarem.
Estarei acordada para nunca mais deixar que tu também passes despercebido.

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