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Thursday, 10 June 2010

Voltar a Sentir (3/3): Razões para não Amar

Ele sentia-se perdido. Certamente não tinha sido intenção sua alienar uma amiga, uma confidente. Começara por fazer o que fizera com a melhor das intenções: para a salvar de si própria. E as coisas até tinham corrido bem até à altura em que os seus próprios sentimentos deixaram de ser inocentes e o desejo de a amar foi tomando conta de todo o seu ser. Mentira! Pensando bem, o descambar da relação começou bem depois dele sentir que aquela amizade intensa poderia traduzir-se em amor.
Gostara de sentir o que sentira em relação a ela: um sentimento amoroso que lhe dava um nó no estômago quando sentia o ar quente da sua respiração perto da cara, ou quando o calor do seu corpo se aproximava do seu.
A ligação, essa, começou a deteriorar-se precisamente na altura em que se apercebera que esse amor poderia ser recíproco...e se Arantza o amava era possível que não fosse tão perfeita como anteriormente a tinha imaginado. Uma mulher perfeita nunca se teria apaixonado por ele...ser indigno de tal amor! Apenas uma mulher com os mesmos defeitos que ele – e não uma cujas qualidades almejava ou que por vezes parecia reconhecer em si mesmo – poderia querer entregar-se a ele de corpo e alma.
Sim, foi a partir dessa constatação que se verificou a queda gradual do anjo do seu pedestal.
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Arantza desconhecia as razões verdadeiras desse distanciamento incompreensível – e quase ofensivo – por parte do seu 'salvador'. Dôr, raiva, sentimento de abandono...porque tem que se sentir sempre assim tão mal?
Porque é que os olhos bem abertos, parecem ver menos do que vendados?
Desespero d'alma. Desejo de calma. Deturpação d' amar...
Talvez pudesse ter reconhecido essa crescente insegurança da parte dele se não estivesse demasiado ocupada a tentar descobrir em si própria a causa desse distanciamento: quanto mais defeitos encontrava no seu próprio ser, mais raiva acumulava contra o seu homólogo nessa relação complexa e entrelaçada.
Amor? Qual quê! Se ele a amasse realmente, por certo a teria aceite tal e qual como era – defeitos e qualidades, sem julgamento nem distinção.
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Assim, um novo começo se desenha nas vidas destes dois seres, em tempos unidos pela amizade mas depressa separados pela incapacidade de amar.
Dôr, raiva, sentimento de abandono...porque tem que se sentir sempre assim tão mal? Porque é que os olhos bem abertos, parecem ver menos do que vendados?
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Um erro de cálculo cítrico: o que à primeira vista pareçia ser uma atracção de 70% a 90%, depressa revelou, nada mais nada menos, do que uma proporção (nunca em síntonia) de uns 30% a 50%. Realmente insuficiente numa relação. Naquela relação.
Auto-depreciação. Falta de comunicação. Os ingredientes certos para a in-sustentabilidade de uma relação.

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Mesmo em tempos de tempestade emocional, a despensa tem que ser abastecida. Rotinas mundanas que fazem sentir que o nosso mundo não se derrubou por completo. Apenas destroços, algum dia devolvidos ao seu anterior esplendor.
Estava na secção da fruta. Optaria pela biológica ou pela mais visçosa? Escolha mais do que óbvia: as aparências iludem, sabia isso muito bem.
– Posso ajudá-la, minha senhora? – perguntou o empregado num tom um tanto ou quanto paternalista.
– Obrigada, só quero umas laranjas. Eu escolho.
– Como estava aí parada há mais de cinco minutos...julguei...
– Cinco minutos? – Arantza parecia confusa, mas recompondo-se acrescentou – Deixe, eu própria escolho as laranjas...
Isso! Já sabia o que destoava naquele cesto de laranjas suculentas...no meio delas, um pouco maior, pálida e rechonchuda, encontrava-se uma toranja. Destova, mas não parecia deslocada.
A mente de Arantza fervilhava de tão iluminada que parecia estar. Tinha que sair dali.
Deixou o cesto onde estava, pegou numa laranja e na toranja e quase que voou para a caixa. Pagou...nem quis receber o troco. De tão rápida que se movia, os seus pés quase que nem tocavam o chão...foi nesse estado de euforia que flutuou até casa do seu 'salvador'.
Entrou, sem esperar ser convidada...
– Já sei onde errámos. Sou como esta laranja. Tu esta toranja... – balbuciou ela agitada – Eu pensava que tinha encontrado uma outra laranja que me complementava e esperava que te comportasses como tal, mas evidentemente não és uma laranja e não podias ser o que eu queria que fosses... E se pensares bem, se calhar tu pensavas o mesmo de mim: que eu era uma toranja, o que não sou...Não, escuta, deixa-me terminar...Estava no supermercado a olhar para o cesto de laranjas e de repente...vi esta toranja amarela pálida no meio das laranjas cor de laranja...destoava, claro, mas não estava deslocada, foi o que eu pensei, e nós...
Não teve tempo de terminar o que ía a dizer, pois de repente, como uma forte chicotada visual, viu uma outra toranja toda aperaltada sentada no sofá, no mesmo sítio onde ela se costumava sentar.
– Quem é essa to...essa mulher?

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