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( First posted in Portuguese,  in March 2011,  when J. was 5  years old) For my niece, Jessica Long ago when animals used to sp...

Saturday, 17 July 2010

A Caixa Lilás

– Porque nunca queres brincar comigo?
– Porque és mais pequena e não sabes brincar ao que eu gosto de brincar.
– E porque não me ensinas a brincar ao que gostas de brincar? Eu quero tanto brincar contigo.
– Porque levaria muito tempo a explicar e nunca seria a mesma coisa.
– A mesma coisa que quê?
– Marta, deixa-me em paz e vai brincar com as tuas bonecas... – e como era costume fazer, Joel atirou um sopro mentolado à testa da irmã.
Resignada, Marta lá foi brincar com as suas bonecas, mas uma delas adoeceu e teve que a levar ao médico.
Ao atravessar a passadeira, esqueceu-se de olhar para a esquerda e para a direirta, e um carro vermelho com música aos berros fê-la saltar bem alto, qual Peter Pan rodopiando no ar, até à magestosa cambalhota mortal. Wheeeeeeeeeeee!!! Felizmente Marta voava tão rápido que mal deu para sentir a força que pode ter um Porche vermelho que circula a mais de cento e cinquenta kilómetros por hora, dentro de uma cidade...
*
O pai, a mãe, os avós, tios, primos e amigos estavam destroçados. Joel foi o único que não chorou, mas por dentro também se sentia destroçado. Como não estaria? Então não fora ele que a mandara embora? Se ao menos tivesse deixado a Marta jogar com ele à playstation naquele dia malfado!
As lágrimas e o choro esgotaram-se na casa de Joel onde passou a reinar o silêncio...

*
Dissera aos pais que fazia 13 anos, que já era grande e não queria a festa da praxe. Pareceu-lhe ver um tremor de alívio nos olhos da mãe. Tinham-lhe prometido uma BTT de último modelo...Fingiu estar excitado.
A quatro dias do seu aniversário, Joel, aproveitando estar sozinho em casa, armou-se de coragem e entrou no quarto de Marta. Continuava cheio com um vazio abafado.
Sentado na cama da irmã, Joel pegou na almofada para a cheirar. Talvez se sentisse de novo o cheiro dela conseguisse alterar a realidade. Quem sabe?
Debaixo da almofada, um envelope branco com o seu nome e gaivotas e conchas desenhadas.
JOEL.
Era para ele.
As mãos tremiam-lhe ao abrir o envelope.

Mano Joel,
Parabéns.
Com o dinheiro da minha semanada fui à loja dos Chinas e comprei-te uma caixa de cor lilás, da cor da tua camisola preferida. Dentro da caixa estão três coisas: Um cristal de sal, um raio de sol e um sopro.
A Mãe anda sempre a ralhar contigo por pores demasiado sal nas batatas fritas – não compreende que não gostas de comida insonça. Eu compreendo. Também não gosto. Mas gosto menos que a Mãe ralhe comigo...Pensei que se tivesses esta pedrinha, a comida não ficaria tão insonça e não te ralhassem. Pelo menos por um dia.
No Inverno, apesar de ficares com os pés frios, passas muito tempo ao computador. Pedi ao Sol um raio para te aquecer os pés.
Queria dar-te um beijinho nos teus anos mas sei que não gostas de abraços e beijinhos. Por isso me despenteias sempre a franja com os teus sopros de pastilha-mentol. São beijos para ti! Sempre que te apetecer um, abre a caixa lilás.
Da Marta


Com os olhos marejados de lágrimas, Joel começou uma frenética busca à caixa lilás. Encontrou-a fundo no armário, junto do elephante Babaloo...
Uma caixa simples com uma tampa em forma de envelope, uma flor e as palavras «Made in China» a prateado...Com um soluço de alívio, Joel abriu a caixa, sentindo o sal das lágrimas na boca, o calor do sol a correr-lhe pelo corpo, e o sopro a abanar-lhe levemente o coração. Sentia-se aliviado por saber que, apesar dele nem sempre o ter demonstrado, a irmã soubera sentir o amor que realmente tinha por ela.



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