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The Dreadful Dragon Heavy-Foot

( First posted in Portuguese,  in March 2011,  when J. was 5  years old) For my niece, Jessica Long ago when animals used to sp...

Sunday, 22 May 2011

PEQUENA HISTÓRIA: Partes 13-16, por Fernando Silva e Paula

Parte XIII

__________________________________ por Fernando Silva
           – Kassandra?! (Juno)
           – Kassandra?!... (chama Mick, com aquela voz receosa de quem sente que “perdeu o pé”….) Kassandrinha?!...Kassie?!... (…)
           – Acho que a bnossa Kassandra bpartiu… (…)
           – Hã?! (Mick)
           – A sério?! E agora Bili Bibi?!... mas ela estava tão bem….!
           – Bpois estava. Talvez bpor isso tenha achado que tinha chegado a hora de bpartir…
           – E sem nós?!... (Mick)
           Mick e Juno observam o ar tranquilo de sorriso nos lábios que invade o Kassandra-body…
           Com a partida da faladora, sábia e excelente companheira, Mick perdeu também o seu novo sentido de humor, voltando ao velhinho…muitas vezes inconsequente, apesar de bem-intencionado.
           Bili Bibi explicou aos companheiros de viagem as derradeiras pretensões da amiga. Disse-lhes também que a Kassandra renasceria noutro ponto do universo, sob a forma de mulher, ou de outro animal… com 2, 3 ou 4 braços...ou patas!
           Depois de cumpridos os rituais…sete conjuntos de sete águias emergem do céu roxo, transportando uma manta de flores… deitaram suavemente o Kassandra-body sobre o tear de pétalas… e partiram sob o olhar de Bili Bibi e os acenos de Juno e Mick…
           Cai a noite em Martenexus. Tons de caramelo e cheiros de um amarelo cristalino… que se vai abrilhantando conforme a distância aumenta. Ao perto, está tudo numa escuridão de chocolate, para se ir abrindo em caramelo, chocolate branco… e mais ao longe em flocos de algodão doce.
           Os três resistentes gravam uma pedra que colocam à entrada da gruta… “Kassandra, simplesmente Kassandra… nasceu para ser e viveu para sempre.”
           Os dois antigos companheiros de jornada tentam descansar… embora o fantasma da amiga os persiga, em sonhos e… nas visões em que se reflectem e projectam feixes de luz vindos dos sete cantos do universo.
           No éter de Martenexus, além do silêncio de Juno e Mick, emergem cânticos fantásticos sob forma de músicas celestiais, tipo, top dos tops… o melhor que se produziu durante toda a existência de todas as galáxias… das mais antigas às mais recentes. São sons capazes de fazer sonhar qualquer ser em qualquer ponto do universo. São as vozes mais doces e melodiosas… os ecos mais enternecedores… enfim… é um clima de homenagem à simplesmente só, Kassandra.
           Perto dali, Bili Bibi, aproveita para reparar o MJKG Mobile, agora por ironia do destino, reduzido à designação MJB. Os outros dois, quase-eternos navegadores do espaço aproveitam para descansar e carregar os iões do cérebro.
           Passaram sete horas… e os três voltam a estar de pé:
           – Meus amigos! (Juno)… gostaria que, por razões que todos conhecemos, continuássemos a chamar à nossa nave MJKB Mobile. O que acham?!
           – Viva, apoiado!!
           – Bviva, abpoiado!!!
           – Então, Mick, traz as tintas permanentes que trouxemos de Millus. Vamos pintar a nossa nave… afinal também tem nome… eheheh … (Juno)
           – Muito bem… e eu bposso escrever as letras… nós, os bgénios não trememos das bmãos… e, bpintar e esticar o bpescoço ara trás… para bver se está direito…coisas simples, que bvocês não bpodem fazer. Vou rir, bioc, bioc , bioc… último bioc!
           – Então aqui estão as tintas… são sementes de bionaras… têm um tom de rouxinol-de-campo das luas de Saturno, com cheiro a mar. Enfim, tonalidades que variam com o tempo, coisitas que não havia na Terra…! (Mick)
           Juno e Mick ficam a olhar para a rapidez e precisão com que Bili Bibi, decora os flancos da, pequena mas muito jeitosa… e recentemente reparada, nave. “MJKB Mobile”… em tons fantásticos e nunca vistos de um qualquer espectro, que não o solar.
           Ainda a olhar para a vistosa, pequena, muito jeitosa e recentemente reparada nave, os nossos amigos arrumam nos compartimentos correctos todos os apetrechos utilizados pelo génio e entram no veículo espacial. A próxima paragem será no além… como sempre…
           A nave descola suavemente de Martenexus. Os tripulantes olham uma última vez para o planeta dos aromas e das cores sem paralelo em toda a rota planetária. Bili Bibi faz eco de toda a sua flexibilidade, virando a cabeça para trás sem mexer os ombros, focando a sua genial visão na pequena pedra dedicada a Kassandra. Durante a primeira parte desta nova viagem, enquanto saem da órbita Martenexial, os três companheiros vão em silêncio.
           Passam 7 dias, 7 horas, 7 minutos e 7 segundos terrestres desde que Kassandra, para os amigos Kassie Woman, se despediu do seu mundo. O MJKB reencontra-se com o corredor de águias. No entanto, junto com as águias voam outras aves…
           – Mick, repara, foca o tele-visor-espacial… são falcões… falcões peregrinos…! (Juno)
           – Juno… repara naqueles outros pássaros mais ao fundo… vê como voam… (Mick)
           – São gaivotas…!
           – Isso… são bgaivotas que vieram do bmar das luas de Saturno… estiveram lá durante todo este bperíodo em que a bterra desapareceu…
           – Txxx… e estão de volta… mas porquê?!... (Mick) será que algo de novo se passa entre Vénus e Marte?! Será que a velhinha Lua voltará a ter um guia…
           – Isso…! A Lua ter um guia… algo à volta do qual possa girar… um planeta… (Juno)
           – Bvejo ao longe uma poeira de bcápsulas-mensageiras… Mick, bpodes abrir a carlinga, por bfavor?!
           O MKBG, está de carlinga aberta…. Bili Bibi estica os braços para a atmosfera… a poeira vai-se aproximando… o génio estica mais e mais os braços… e liga a sua infra-sonda…
           – bbbzzzzzbbzzzz… Theo zzbbzzzz Kassandra…. bbbZzzzzz Theo….bbbzzzbbzzzzzzz …. Kassandra…… bbzzzzzbbbzzz..
           Neste momento duas cápsulas cristalinas abandonam o núcleo e dirigem-se para o veículo espacial… sob o olhar concentrado de Juno e Mick.
           – Aqui está a bmenina Bkassandra…! E o Theo….! Agora poderemos bsaber se o regresso das aves bsignifica o regresso do velho bplaneta… ou se temos mais surpresas… Juno, importaste de abrir e bler as bcápsulas?!....
           – Claro! Esta é a da Kassandra…! Diz que:
           “Meus queridos amigos. Espero que tenham captado esta mensagem. Renasci no planeta….”

Parte XIV
__________________________________ por Paula
 
            '...Renasci no planeta Arretmisa, que fica exactamente a meio caminho entre Marte e Venus.
            Digo renasci, pois é o que já terá sucedido quando receberem esta mensagem. Antes de voltar a encarnar, os seres iluminados permitiram que vos enviasse mais uma mensagem de esperança: A morte não é mais do que o fim de uma aprendizagem e o começo de uma outra, a fim de atingirmos um estádo cada vez mais elevado e iluminado.
           Parece que a mim já não me faltam muitas vidas para me tornar num desses seres iluminados, guardiães do universo. Até lá, resta-me apenas adquirir a qualidade da aceitação da permanência e da imobilidade, mas, como ainda não me sentia capaz de reencarnar em algo tão estável como uma árvore que, com sorte, pode passar séculos crescendo num mesmo local, decidi que recomeçaria a minha aprendizagem como um leão de montanha. Deste modo, não deixarei de ter a liberdade de movimento que sempre me caracterizou, embora esteja, ao mesmo tempo, limitada a um espaço-geográfico específico: neste caso, trata-se da Montanha Amartenus.
           Digo-vos isto, pois se conseguirem encontrar o caminho até Arretemisa e chegarem a visitar esta montanha, pode ser que nos encontremos de novo. É certo que na minha nova forma de vida, poderei não vos reconhecer e o encontro poderá ser um pouco arriscado para vocês, por isso aconselho-vos que tomem todas as precauções necessárias...Mas a minha ligação convosco nessa minha vida passada, foi tão forte, poderosa e educativa, que estou confiante de que haverá resquícios dessas memórias que me permitirão – por meros momentos que seja – reconhecer-vos e apagar a sede da saudade.


           – Estão a ouvir isso? Afinal sempre conhecia a Kassandra de outras vidas. Lembras-te, Juno, quando eu vos contei de como havia sonhado acordado e nesse sonho Kassandra havia sido minha mãe? Isto quer dizer que...
           Mas o Génio do Espaço, um pouco para o impaciente por ouvir o resto da carta, interrompeu Mick a meio da sua divagação, – Isso é tudo muito certo, Mick, mas deixemos que Juno prossiga com a leitura da carta. Juno, força!


           A mim, poderão reconhecer-me facilmente, pois uma risca prateada atravesserá o meu dorso dourado, o que é muito pouco comum nos leões da montanha.
           Mas voltando ao novo planeta...Arretmisa já está habitado por muitos seres terrestres que foram chegando até aqui, depois de percorrerem centeno-mega-milénios de luz de caminho. É um novo mundo criado à imagem e semelhança do antigo planeta Terra, embora com leves nuances, como seria de esperar na reprodução de um original. Houve, no entanto, um esforço conjunto e de sacrifício por parte dos seres iluminados, para melhorar certos aspectos deste novo mundo em relação ao anterior.            Uma última mensagem, desta vez da parte dos seres iluminados, guardiães protectores do Universo: Este planeta, Arretmisa, foi criado para substituir a Terra; é uma segunda oportunidade para todos os seres animais, vegetais e minerais terráqueos. Mas, como sempre foi e sempre será, os seres humanos beneficiarão do seu livre-arbítrio, e nada vos obrigará a seguir nesta direção. Vocês são livres e as vossas escolhas serão sempre as melhores escolhas possíveis nesse determinado momento das vossas vidas, nunca se esqueçam disso...No entanto, se assim o desejarem, deverão regressar ao portal da cornucópia, penetrar nela pelo lado lateral esquerdo e navegar ao longo do plano três de existência. Saberão quando for a altura de sairem novamente do portal.
           ...Dizem-me que Já está na hora da minha reencarnação, por isso, tenho que terminar por aqui a minha carta.
            Mick, Juno e meu querido Génio do ombro acolhedor, deixo-vos com um abraço cósmico e com o desejo de um dia nos voltarmos a reencontrar, com as aventuras que vivemos bem gravadas nas nossas memórias, a fim de não levarmos demasiado tempo a reconhecerrmo-nos.
           De quem vos ama até ao fim do infinito e de volta,
           Kassandra


           E foi assim que o MJKG se dirigiu novamente à cornucópia e penetrou na parede lateral esquerda com a facilidade com que se atravessa uma sobremesa de gelatina com o dedo...Novamente, houve a necessidade de os seus olhos se adaptarem ao ambiente violeta que os rodeava e à sensação de estarem submersos em água, como se o MJKB fosse um submarino em vez de um Mobile espacial.
           Sendo a única diferença que, desta vez, Juno e Mick sentiram uma necessidade enorme de fechar os olhos e dormir; de dormir o sono dos bebés que nada anseiam, que nada temem. Finalmente, o descanso dos séculos que andaram à deriva!

           E foi assim, com Juno encostada ao ombro de Mick, e Mick apoiando a sua cabeça na de Juno, que os dois companheiros de longa data adormeceram.
           O único que não sentia necessidade de dormir era, naturalmente, o Géniozinho, que tentava racionalizar os seus recém adquiridos sentimentos, pertencentes a um mundo subjectivo pouco conhecido pelos da sua classe. Um deles, por exemplo, o da curiosidade que sentia em saber o que continha a segunda cápsula de quartzo. Não se sentia à vontade em abri-la sem os outros, mas o certo é que vontade não lhe faltava. Mas génio que é génio, não poderia nunca vergar-se perante a subjectividade e muito menos deixar-se levar por ela. Por isso, organizou as suas confusas e subjectivas novas emoções, e guardou-as num compartimento seguro no seu cérebro, para numa altura mais calma as analisar e catalogar racionalmente.

        – Hey, moços, acordem já dormiram o suficiente para uma vida inteira. – apelou Bili Bibi ao mesmo tempo que abanava os ombros dos seus companheiros. – Vamos lá, aproxima-se uma saída na parede inferior deste nível três de existência.
           Juno foi a primeira a abrir os olhos, surpreendendo-se com a proximidade de Mick, com o seu respirar lento e morno, mesmo por cima da sua orelha. Não lhe apetecia mover-se de tão segura que se sentia naquele momento, mas sabia que não havia tempo a perder.
           – Mick, acorda, olha que o peso da tua cabeça está a fazer-me um torcicolo... – disse Juno disfarçando o que realmente sentia naquele momento. – Vamos, acorda que temos que nos preparar para uma nova saída do portal.
           Mick estendeu os braços num bocejo um pouco para o exagerado (na realidade, estava acordado há um tempão, mas não havia querido soltar-se daquele acolhedor entrelaçar de braços e cabeças).
           – Uuuuuuuuuuuuuuum-wah! Estava mesmo a precisar deste descanso... – disse ele, mas, quando viu o olhar quase impaciente de Juno, acrescentou imediatamente... – que queres que faça?
           Juno deu as indicações aos seus companheiros que, sem tirarem o olhar da abertura que se tornava cada vez mais visível no chão, continuavam ocupados com as suas tarefa.
           Antes que podessem dizer mais uma palavra que fosse, já estavam a ser expelidos para fora do portal com a força de uma bala disparada por um canhão.
           – Whoah! – gritou Mick. – Isto é mesmo radicaaaaaaaaaaaal...
 
           Uma vez controlado o MJKB Mobile e a calma restabelecida, os passageiros daquela pequena-mas-muito-jeitosa-nave que recentemente – bom, aqui voltamos um pouco à subjectividade do tempo espacial – fora reparada e pintada, tiveram oportunidade de apreciar o vasto e maravilhoso espaço que os rodeava.
           A distância – tal como o tempo – acabava por ser relativa e possivelmente ainda teriam uns bons meses de viagem pela frente...Mas ali mesmo à frente deles, a um mero esticar de braço, estava o velho e belo planeta Vénus. Segundo Kassandra, Arretmisa estaria para lá desse planeta, a meio caminho de Marte.

Parte XV

__________________________________ por Fernando Silva
            Mick, segura umas cartas e uns mapas e pede um minuto de atenção:
            – Então, a meio caminho entre Vénus e Marte…  fica a Terra. Fica, ou ficava… (…)
            – Então, essa terceira via, pode ser a chave que nos abrirá a viagem de regresso?!(Juno) Ou será que Arretmisa é um planeta que está no lugar da nossa Terra?!
            – Hum… eu sei… porque bfoi matéria do segundo ano do meu bcurso bgenial… sei que bvocês só poderão ir a Mercúrio… ir a Vénus, ufa… nem bpensar!
            – A sério, Bili Bibi?! (Mick)
            – Btal e qual! Apesar de Vénus ser mais perto… tem um avançadíssimo efeito de bestufa! Uma temperatura média de 480º… por bcausa das nuvens de ácido sulfúrico. É muito difícil suportar o ambiente… e a pressão atmosférica é 92 vezes superior à da Terra… por isso, só seres evoluídos em bvárias encarnações poderão escalar em Vénus….
            – Mas Mercúrio é muito perto do sol… é o planeta vermelho…! (Juno)
            – Bpois é… mas tem uma temperatura mínima de menos 173º e máxima de 427º. Bquando a variação andar pelos menos 20 e mais 40, os terráqueos poderão visitar a Grande Crosta Vermelha. O bprincipal problema é encontrar uma nave que viaje na bvelocidade penta-nós-luz-fogo… só assim poderão ir e bvoltar sem gelar nem bqueimar…
            – Mas aqui na carta está uma coisa mal… (Mick) então o sol roda ao contrário em Vénus?!... De oeste para este?! Hummm, não pode ser… então íamo-nos deitar ao nascer do sol e passado 14 horas é que nos levantávamos?! Quando fosse de noite!?
            – Vou rir, bioc bioc bioc… último bioc! Com que então 14 horas?! E se bfossem 3402?!
            – 3402?!... (Juno)… quer isso dizer que o dia Venusiano é 243 vezes superior ao da Terra?!
            – Ebxactamente!
            – Eheheh… então quer dizer… uma pessoa sai de casa para ir trabalhar e só aparece em casa… deixa cá ver… oito meses depois?! (Mick)… Quer dizer, a minha mãe dizia-me: “Mick, quando fores para o escritório, passa pela padaria e compra pão”… e quando chego… já está rijo e petrificado…! E a fome que deve ser… entre o almoço e o jantar … 2000 horas?!
            – Havia de ser lindo…  eu telefonar para o médico…”Olhe, nasceu o meu filho, pode vir vê-lo?”… “Sim, mas só  daqui a um mês… entrei hoje de férias”…. E depois lá  vinha o médico, “Então onde está  o bebé?”… “Olhe, está  na tropa… e já acabou o curso, também  é médico!” (Juno)
            – Vou rir, Bioc bioc bioc… último bioc! Então como se pode comparar um bdia Venusiano bcom um bdia Terráqueo?! São super-bdiferentes! Agora bvamos em direcção a Arretmisa… Mick… segue as águias…!
            – Onde, onde?! Eu não vejo nada…!
            – Nem eu! (Juno)
            – Mas eu bliguei a génio-bvisão… e preparem-se para uma surbpresa! Uma bgrande surbpresa! Além de águias-reais voam outros seres…
            – O que será?! Mick, liga os binóculos nucleares…
            – Eh…  ehh…!
            – O que é, Mick?!?!
            – Eh…  eh,eh……ehhhhhhhhh… txxxxxxx
            – MIIIIICK!!!!  O QUE ESTÁS A VER…?!?!
            – Pombas! Pombas!! Pombas!!!
            – Três pombas?!
            – Não…  milhares de milhares de milhares…!
            – Três milhares?! (Juno)
            – Não, amiga…  é um carreiro… é  uma festa de asas e de penas… a caminho dum planeta… com uma forma estranha…! (Mick)
            – Que forma estranha?! (Juno)
            – É  uma coisa que não parece uma bola…  parece um… parece um…  coiso com uma coisa… (…)
            – É… é uma planifoide-paratus! Diz-se dos bplanetas que estão bparados… parecem espalmados… os rios correm de bcima para baixo e os bventos de baixo para bcima!
            – Então, e podemos encontrar a Kassandra…?! E como a chamamos?! (Mick)
            – Talvez…talvez…  Kassandra e Theo…
            Dito isto, Juno abre uma pequena escotilha e tira uma máquina retro-digital. Ligou-a e reviveu momentos hilariantes, gravados desde o aparecimento da boa Kassandra, até ao seu ocaso em Martenexus. Os três-resistentes companheiros de jornada estão de olhar fixado no pequena artefacto digital… dois de olhos muito brilhantes e um de olhos esbugalhados, ainda a ensaiar o efeito fantástico e muitas vezes surpreendente que as emoções terráqueas têm nas expressões faciais dos humanos.
            O MJKG aproxima-se silenciosamente dos bandos de pombas escoltados por Águias Reais. Ao fundo, a olho nu, começa a perceber-se a silhueta de Arretmisa, o planeta parado. Parado, mas devido a uma soberba evolução, como toda a luz vem do seu núcleo, atravessa cavernas e fontes e fornece iluminação e calor a todo o planeta, mesma às faces sombrias relativamente ao grande Sol.
            A nave-mágica, mas muito jeitosa e recém-pintada, avança… no seu interior a atenção redobra a cada milha percorrida… Juno recorda Mick e explica a Bili-Bibi que este cenário fá-la recordar os livros do Tintin e a magia de Peter Pan. Escritores como Júlio Verne, Goschini… enfim, tudo o que a fez sonhar enquanto jovem passou a ser motivo de conversa, em tom de fantástica e deliciosa narrativa.
            Uma dúvida acompanha os três companheiros de jornada: Arretmisa será a nova Terra? Que seres habitarão o planeta-parado? Como estarão organizados?! Haverá jornais e televisão? Ainda se casarão as pessoas?! Haverá dinheiro, bancos e banqueiros?! E como se deslocarão?!
            – … e como comerão?! Se precisarem de comer, é claro…! (Juno)
            – Seres evoluídos, Juno e Mick! São seres que só bvivem para estudar, aprender e ensinar! São os bgrandes divertimentos das criaturas multi-regeneradas… das que se desenvolvem em bvidas sucessivas…! Alimentam-se de Cloró-nectar… são energias que bse encontram nas radiações bsolares e planetárias. As do Sol, ajudam a desenvolver os aspectos bfísicos… as radiações nocturnas bdos reflexos das muitas luas… promovem a bvalorização intelectual dos indivíduos….!
            – Ahhh… parece-me perfeito! Aliás, poderá muito bem ser o caminho para a tal utópica perfeição…! (Juno)
            – Mick… o planeta Arretmisa é completamente verde!
            – Vou rir… bioc bioc bioc… último bioc. Então, as bcores são sinónimos de distância. Agora está bverde… a seguir será bvermelho… azul… amarelo… e muito mais bperto será branco…!
            – E depois?! (Mick)
            – Depois… bem bdepois será uma bgrande surpresa…!
            A nave continua a voar em silêncio… no horizonte, Arretmisa, o planeta-parado. Por todos os lados há corredores de aves… muitas e bonitas aves. Águias, pombas e os recém-chegados flamingos.
            Nenhum animal parece ansioso por chegar… mas também nenhum abranda o seu voo. É como uma sinfonia de asas, uma classe de dança rítmica em perfeita sintonia...
            Num horizonte anilado, o MJKG voa em direcção a mais uma descoberta... esta por ventura, mais importante que qualquer uma das anteriores. É que, por lá, habita um ser conhecido, que deixou uma catadupa de saudades nesta pequena comunidade de viajantes do espaço. Será que o tal traje dourado com uma faixa prateada a fará emergir rapidamente aos olhos dos nossos amigos…? )Ou deverão perguntar por uma bem disposta e faladora amiga?! Perguntar a quem?! E de que estatura serão os Arretmesianos?!...
            Passam os dias…  o planeta agora parece amarelo… a viagem está a chegar ao fim. A viagem, ou melhor dizendo, esta etapa…!
            Depois de uma boa temporada a descansar os olhos, o piloto-mor acorda:
            – Juno, Bili-Bibi…! O Planeta-parado já parece branco! Estamos perto, estamos perto… Eureka…!
            – Iremos descer a meio…? (Juno)
            – Bvamos descer a meio… mais ou bmenos a meio… é assim que bdeve ser… mas ainda bfaltam dois bdias… agora vamos apanhar bandos de papagaios e araras… depois, quando bfaltar um bdia, apanharemos os tucanos e as fragatas… bdepois, falcões peregrinos e estaremos no planeta novo… o bplaneta-bparado.
            Os nossos amigos continuam a somar experiências e surpresas nesta aventura galáctica. Séculos depois, muitos séculos depois, esta aventura poderá terminar e dar lugar a outra! Essa outra, será com certeza sem nave, mas com a tranquilidade de quem regressa a casa, ou de quem adopta uma outra como sua.
            …a caminho de Arretmisa!

Parte XVI

__________________________________ por Paula
            O silêncio reinava no MJKB Mobile enquanto baixavam pelo túnel de vácuo, bem no centro do planeta Arretmisa. Mais uma vez, o controlo da pequena nave não estava nas mãos dos seus tripulantes. Era como se estivessem suspensos no ar, ao mesmo tempo que uma poderosa força de sucção os sacudia freneticamente, impelindo-os para baixo, um quilómetro de cada vez, deixando-os com a mesma sensação no estômago, provocada pelo mergulho do alto de uma íngreme encosta de montanha-russa. Não fosse o facto de todos os nutrientes essenciais à sobrevivência dos seres terráqueos serem providênciados pelo cosmo, mantendo os seus estômagos livres de quaisquer alimentos, haveria, com certeza, pelo menos dois elementos da tripulação que estariam, neste preciso momento, a mudar de cor, de tão enjoados que estavam.
            Finalmente tocaram o solo no meio de uma enorme e redonda superfície de aterragem – tão grande, que mal conseguiam ver o que estava para lá da pista. Ficaram mais uns minutos em silêncio para permitir que os seus sentidos voltassem ao normal, até que Bili Bibi se levantou e saiu do MJKB Mobile, prontamente seguido por Mick e Juno.
            Uma vez em terra firme, Mick e Juno respiram fundo, sendo de imediato invadidos por um intenso e reconfortante sentimento de déjà-vue olfativo. Cheirava a casa!
            Bili Bibi, esse, coitado, estava a tentar controlar os seus quatro braços, que pareciam ter ganho vida própria naquela nova atmosfera. Mas, não se preocupem, esse meneio aparentemente incontrolável, não era mais do que uma arrebatada reacção ao feliz reconhecimento celular, que os seus amigos – e ele próprio, porque não? – haviam por fim encontrado um lugar a que pudessem chamar lar.
            Nunca abandonariam o MJKB, por isso, voltaram a subir para a nave e, flutuando rente à superfíce, prosseguiram caminho para a borda da pista onde parecia haver mais movimento de asas.
            Aí, deu para ver que estavam numa pista de aterragem no topo do mundo que acabava numa espécie de abismo. Abaixo, apenas viam núvens espessas de um branco-neve...Estavam perante um momento decisivo das suas vidas: ou aceitavam dar esse salto quântico no desconhecido, sabendo que nunca nada seria igual, ou continuavam com a sua viagem milenar, à deriva, pelo espaço.
            – Malta, é assim, quem não arrisca não petisca...– disse Mick com a voz tensa – Para além disso, a Kassandra tem...tinha...a minha confiança absoluta. Mesmo do além, ela conseguiu fazer chegar até nós as indicações do caminho a seguir. Este novo desafio não testa apenas o nosso valor e coragem mas a confiança que depositávamos na nossa amiga.
            – Tens razão, Mick – responde Bili Bibi – infelizmente os meus poderes neste momento estão como que congelados e não posso dar-vos nenhuma informação sobre o que nos poderá esperar lá em baixo, mas sinto que estamos onde tinhamos que estar e, para além disso, a Kassandra era sábia e tinha um coração de ouro. Por isso, aceito a sugestão dela.
            – Está decidido, então, vamos baixar. – Juno retomava novamente o control da situação e da nave – Todos nos seus postos? Aqui vamos nós...
            Desta vez, a descida foi mais suave e, à medida que se aproximavam da terra, a vista tornava-se mais clara e esplendorosa.

            Mick, elevado ao êxtase, foi o primeiro a sair da pequena nave e a rebolar-se na superabundante e viçosa relva, ficando depois, de costas, a olhar para o azul-celeste.
            – Mick, pareces uma criança...– disse Juno olhando-o de cima com um sorriso radiante estampado no rosto.
            – Ai, sim? – e antes que Juno pudesse dizer mais uma palavra que fosse, Mick agarrou-a pelas pernas e atirou-a com cuidado para o chão – Olha só para aquilo, Juno...Há quanto tempo não víamos um céu assim?

            E essa foi a última vez que Mick e Juno estiveram tão próximos um do outro. Sim, porque, se por um lado, uma vez chegados a Arretmisa, os nossos heróis encontraram a estabilidade tão desejada em terra firma, por outro, perderam a necessidade urgente de se agarrarem aos únicos seres que puderam fazer-lhes companhia durante a sua viagem milenar. Aquela amizade antiga parecia ter dado o que tinha a dar! Cheirava a mofo, comparada com o que os conhecimentos que iam fazendo pelo caminho pareciam prometer. Havia uma efervescência de histórias novas! Era a aventura de já não preverem as reacções dos novos companheiros, o que, naturalmente, os tornava menos monótonos...
            O Mick foi o primeiro a afastar-se do grupo do MJKB, tendo conhecido uma bela morena de olhos escuros como o breu, com fartas pestanas que mais pareciam pintadas com rímel permanente.
            À Juno, claro que lhe custou a aceitar esse distanciamento. Talvez por ser mulher, vivia a amizade e o amor com outra força dimensional...e também havia a tal pedra, que Mick havia recolhido aquando da passagem pelo Anel de Saturno e que em tempos, até chegara a pensar que viria a enfeitar um anel, no seu próprio dedo anelar...Sonhos espaciais! Mas também, mais depressa do que ela o suporia, se desprendeu das memórias dessas vivências e depressa seguiu em frente...fascinada pelo emocionante e divertido Victor. Foi na companhia deste homem que partiu à descoberta do novo planeta.
            Com isto tudo, apenas nos resta o nosso querido génio do espaço que, incapaz de compreender o afastamento dos amigos e a natureza humana, decidiu ir procurar refúgio na montanha Amartenus, que Kassandra havia mencionado.

            Depois de uns bons dois meses a caminhar, Bili Bibi chegou finalmente a Amartenus. Era uma montanha castanha, nem muito alta nem muito baixa. O terreno era agreste e embora houvesse alguma vegetação, o castanho da terra sobrepunha-se ao verde. Olhando para o cume, viu que não terminava num bico mas sim em três, que começavam a erguer-se a partir da metade da montanha. Nesse meio ponto entre a terra e o céu, havia o que parecia um vale. Era para alí que se dirigiria.
            Apesar de sentir como que uma força magnética que o puxava para o solo, com esforço redrobado, Bili Bibi lá conseguiu subir o corpo da montanha. Notava que, à medida que se afastava do sopé, a montanha tornava-se gradualmente mais bonita – pelo menos aos olhos no nosso querido géniozinho. Não havia ninguém por aqueles lados, e o ruído natural do silêncio encantava-o.
            Ao chegar ao plano entre os três picos, fez um esgar de surpresa: ali, encostada a uma das escarpas caía uma cascata de branca espuma, para dentro de um rio ovalado. O cansaço e as recordações da sua amiga Kassandra quebraram-no: Pela primeira vez na sua vida – e muito possivelmente na história dos génios – um génio do espaço, Bili Bibi, começou a chorar. Primeiro suavemente, apenas sentindo as lágrimas lilázes a escorrerem-lhe pela cara, depois cada vez mais intensamente, até que finalmente todo o seu corpo bailava com os seus soluços incontroláveis. Aquela dor de alma, quase insuportável, apenas acalmou com um grito dolorosamente gutural, imitando o som da voz de Kassandra:
            – Kassssaaaaaaaaandra!
            Nisto, ouve-se o click metálico da última cápsula de quartzo. Lá dentro, uma mensagem de Theo:
            (Imaginem a carta escrita em forma de espiral e com uma letra tombada para a esquerda!)

Amigos de Kassandra,
              A cápsula com a pintura feita com as cinzas da minha querida Kassandra chegou até mim. A tela do anoitecer no planeta Martenexus é simplesmente maravilhosa, e os cheiros doces e enebriantes fundiram-se com as tintas e com a minha amiga. O retrato da paisagem reproduz o seu interior tão fielmente, que nem consegui chorar: sei que ela encontrou a suma felicidade nesse planeta.
            Numa ourtra vida, havemos de nos reencontrar, eu e ela. Obrigada pela gentileza de ma terem devolvido,
            Desejo que prossiguam com a vossa viagem e que consigam encontrar um lugar a que possam chamar casa.

Um abraço cósmico,
Theo
O fiel amigo de Kassandra


            As palavras pronunciadas por Bili Bibi pareciam ecoar por toda a montanha. Se Kassandra estivesse presente com certeza que as teria ouvido.
            E, consciente de estar a pronunciar as suas últimas palavras, Bili Bibi, como já se havia aludido, tornou-se o primeiro heremita-mudo-por-opção do Planeta Arretmisa...

            A viagem de regresso às origens chegara ao fim, com a triste constatação que a auto-descoberta e o encontrar das origens não são necessariamente compatíveis. Constatação essa que, infelizmente, com demasiada facilidade, passou despercebida aos nossos outros dois heróis, Mick e Juno.
FIM

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