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For my goddaughter Lara. A beautiful ray of sunshine. It was very early in the morning and Otto the Octopus was still sound a...

Tuesday, 5 April 2011

27, Senha Azul - Fernando Silva :: ParaVenda.net

27, Senha Azul - Fernando Silva :: ParaVenda.net

Introdução
           “27, Senha Azul” é uma das minhas (muitas) histórias.
           São as memórias das vivências com gente fantástica… que de um rolo de arame fazia uma gaiola, do mundo do improviso, do desenrascanço e da camaradagem. Gente de humor fácil, quase sempre pobre e onde a maior riqueza estava no partilhar com os amigos uma merenda, elásticos para uma afunda, uma cana-da-índia para inventar uma cana de pesca ou um canário para fazer criação…
           São recordações do tempo em que pela mão do meu pai acompanhava todos os jogos do Atlético Marinhense, do tempo em que era jogador da equipa (campeã distrital) de infantis em ténis de mesa do Sport Lisboa e Marinha, e que aos sábados e domingos ajudava no bufete do campo da Ordem a fazer as químicas (groselha com água e ginja com gasosa), e a lavar os copos num fiozito de água. Era uma alegria!
           De vez em quando também ia ao Vale das Estrelas, acompanhar o Estrela do Mar. Era o desporto elevado ao mais puro amadorismo… onde os jogos eram apenas mais um motivo de interesse, em tardes inesquecíveis, onde ser árbitro era tão difícil como director-de-serviço, especialmente se o vinho não fosse grande coisa…! E quando a bola ia para a ribeira?! Lá saía a correr um suplente da equipa que estivesse a perder, agarrava no pau com a rede… e lá pescava a bola… enquanto os outros esperavam e bebiam mais uma águita…!
           Com 17 anos comecei a tocar num conjunto de baile, o Staccatus, com malta velha e madura… havia um que até já tinha 21 anos! O único problema, foi que a garagem do meu pai, - condição para que eu pudesse tocar no conjunto - ficava paredes meias com a casa da tia Aurora. A velha e magra senhora, apesar de se levantar às seis da manhã, depressa se habituou ao barulho. A mula dela é que não, e foi desfazendo o curral aos coices. No fim, lá negociámos, e prometemos tocar só até às onze (acho que nunca nos calámos antes da meia-noite, mas está bem…).
           Foi o tempo do rock, dos bailes de carnaval, das passagens de ano, dos arraiais, dos bailes de finalistas e duma nova fonte de receita: os comícios políticos.
           O Staccatus tinha um tema original. Chamava-se “Solidão” e tinha três tons. Era um slow do mais dengoso que se pode imaginar, mas a malta gostava…!
           Ensaiávamos todos os dias, muitas vezes com casa cheia. Quando já tínhamos alguma experiência, começávamos a aparecer com músicas novas. O Lino gravava o “Rock em Stock” no seu “Sharp” multifunções, e no dia seguinte já estávamos a tentar arranhar um êxito, mesmo antes de ser editado em Portugal. Foi assim que fizemos com o “Enola Gay”, que estreamos logo nesse fim-de-semana e devíamos ter repetido umas cinco vezes!
           Toquei noutros conjuntos… no Zarabatana, (que me custou a alcunha, visto ser um modo simples de distinguir os vários Fernandos que na altura jogavam hóquei no Sporting Clube Marinhense), no Arte & Manhas, e mais tarde no famosíssimo “Os 5 Napolitanos”, da Nazaré. Nos “5 Napolitanos” ganhava-se bem. Era um conjunto famoso e bem organizado, muito conhecido por ter bons músicos, e também por ser antigo… mais do que eu. Quando em 1983 fizemos uma fantástica digressão ao Canadá, eu era um puto com 21 anos e o conjunto já tinha 25.
           Como a agenda dos “Napolitanos” era demasiado cheia, obrigava-me a abandonar definitivamente o desporto federado. Na altura, optei por sair do conjunto e conseguir assim mais tempo para o hóquei em patins.
           Passado uns meses, o bichinho da música voltou a morder e convidei quatro amigos para um projecto de originais. Depois de muitas sugestões, a denominação da banda foi a votos: “Duques de Quibir” -2, “In-Extrémis” -2 e uma abstenção. Com toda a gente de olhos bem abertos, a decisão que prometia mudar o panorama europeu (quiçá mundial) da música rock, iria ser tomada por moeda ao ar! Caiu para o lado dos Duques.
           Em 1989, lá fomos de armas e bagagens para Lisboa rumo à gravação do primeiro (e único) LP. Fomos num domingo à tarde e regressamos na sexta-feira. Éramos nove, visto que os assistentes também tiraram férias para nos acompanhar “on estúdio”. Dormimos três em cada quarto, comemos benzinho e voltámos todos inchados com uma cassete na mão – era o master do álbum “Momentos”. No domingo à noite, fomos direitinhos à recém-criada Rádio Clube Marinhense, convidados (à força, mas com todo o gosto!) para o programa do Zé Filipe.
           A Rádio dava ainda os primeiros passos. Era pirata, mas muito estimada pelos colaboradores e pela generalidade da população marinhense. Curiosamente, estive na primeira hora deste projecto, convidado pelo seu fundador e principal entusiasta, o António Prazeres. O estúdio era em sua casa, e nos primeiros meses o cão não percebeu ou ninguém lhe explicou o que é que se estava ali a passar, com dezenas de entradas e saídas de gente nova pelo portão de chapa verde. O brilhante canídeo, cujo nome não me lembro, era com certeza o animal com mais tempo de antena nas rádios nacionais. Mais tarde, lá se arranjou um vidro para separar o estúdio da sala de espera, e os uivos e latidos deixaram de se ouvir.
           Não havia acontecimento cultural ou desportivo que não tivesse cobertura em directo pela rádio e pelos abnegados repórteres especiais. E foram tantos…! Cada um fazia o seu melhor, “Boa tarde, é uma da manhã!”, ou “acaba de passar um casal de aviões por cima do estádio municipal…”, são apenas duas pérolas, tiradas à sorte de um cesto rico, fantástico e colorido, numa época d’ouro em que todos davam o melhor de si e do seu tempo, em prol da comunidade e de uma menina bonita chamada “Rádio”.
           Há uns três anos, sem saber como, fui experimentando umas linhas… e escrevi umas setenta, oitenta páginas. Passado dois anos, voltei a pegar na história e só parei no fim.
           “27, Senha Azul”, é um texto que no início não teve qualquer intenção de ser um livro, mas como nem sempre a razão prevalece, a coisa deu nisto…!
           Espero que se divirtam tanto a ler esta saga, como eu me diverti enquanto a escrevia. É pura ficção, influenciada por um emaranhado de memória e recordações…

F. Silva

1 comment:

  1. Eis a mensagem que escrevi ao F. Silva depois de ter lido '27, Senha Azul A Saga dos Sacos do Lixo':
    «Estás de parabéns pelo teu primeiro livro. Conseguiste algo diferente e gostei do mistério do Tozé que se manteve até ao final; não foi nada previsível. Gostei do modo rápido com que se lê, do cuidado em explicar o mundo do espectáculo (eu não sabia que envolvia tanta gente...). Por outro lado, fez-me rir à gargalhada, mas talvez não pelos motivos crês...como sabes, sou um pouco para o feminista e acho que o livro – à semelhança dos filmes de guerra – está impregnado de testosterona...Grandes gargalhadas me valeram aqueles diálogos entre homens – tão típicos! Então o Vitor e o Vitorino, esses são um tratado! Nota-se o stress dos moços, mas mesmo nessas situações mais críticas, conseguem sair-se com frases hilariantes. E depois há o João, um pouco mais sério e ajuizado, que vem equilibrar as coisas...Creio que este livro deva estar a ser melhor aceite pelo público masculino, pois enredo desenrola-se à volta desse mundo: os conjuntos de baile e o futebol são assim...Talvez por isso as mulheres do teu livro estejam menos desenvolvidads. No entanto, tens pelo menos duas personages fantásticas: a tua Kuxa consegue dar o seu ar de graça pelo modo como fala...parecia uma tonta a rir-me sozinha e alto e a bom som, nessas partes. Depois a querida D. Rosa...No final descreves tão bem o concerto que conseguimos visualizar tudo como se estivessemos a ver a cena no ecrã! Bom, mas risotas à parte, o livro tem uma vertente mais séria e sociológicamente interessante, retratanto fielmente a alma dos conjuntos de garagem, das rádios amadoras, das aldeias, e dos anos 80... Adorei o Epílogo – muito crítico do mundo da publicação. Tal como os teus ensaios sobre a Riqueza, o Infinito, etc, a ironia predomina; uma valente e bem dada chicotada à burocracia do mundo da publicação...Como sabes, sou uma fã incondicional dos teus Ensaios que são sempre brilhantes, sarcásticos, e 'thought-provoking'...Finalmente, para quando um próximo livro?»

    A minha mãe também leu o 27, Senha Azul, e estes foram os comentários que fez: «Achei muito original a página dos autógrafos e dos agradecimentos, com humor. A parte de baixo (dessa página) devia ser maior para as pitósgas como eu poderem ler (pois gostou muito), para ser bem observada. Também gostei do glossário, que dá um ar intelectual à coisa, e é bem humorada.
    O bocadinho dedicado ao autor, está bem apanhada e criativa. O sentido de humor prepassa toda a obra. E cheguei ao fim com vontade de ler mais atentamente o início, que me pareceu, numa primeira impressão, menos capaz de captar a atenção. Na continuação da leitura, senti que havia uma maior capacidade de prender a atenção. O mistério conseguiu manter-se e teve uma conclusão 'diferente' (não era tráfico de droga, nem ligações ilicitas, nem crime). Achei criativo. É uma leitura leve, mas que sociológicamente me despertou interesse, pois descreve uma época. A linguagem própria, os costumes, as anedotas, e até as marcas dos carros que correspondem áquele tempo...»

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