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The Magical Pool

For my goddaughter Lara. A beautiful ray of sunshine. It was very early in the morning and Otto the Octopus was still sound a...

Tuesday, 27 July 2010

Profissão: Nariz

Era um homem muito gordo, tão gordo que já nunca saía do quarto. Não conseguia. Porque se estão a rir? O homem, coitado, não tinha culpa de ser assim tão gordo. Era uma questão hormonal. Mas, bom, se quiserem, podem continuar a rir-se, pois o homem já é homem feito e de tanto risos e risotas ouvir , já não pode sofrer mais. Não deve ser nada fácil...Mas quem disse que a vida tem que ser fácil? Continuemos...
Um dia, esse gordo, muito gordo, respondeu a um anúncio – uma empresa procurava um «Nariz» –, e lá arrastou os pés com muita dificuldade, até à selecção.
Um perfume diferente, era o que os patrões queriam criar.
Quem mais do que o nosso amigo gordo, muito gordo, tão gordo que na altura mal conseguia andar, para o dar?
E foi assim que o gordo, muito gordo os outros narizes conseguiu destronar.
Que sucesso colossal!
Com o seu olfacto transcendental, lá conseguiu o gordo vingar.
De gelados a perfumes, cada um mais original! Canela, caril, moscada, oregão, pimenta, rosas...Tantos cheiros, tantos gostos, que esse corpo gordo, tão gordo escolhe para te mostrar como é amar.

Friday, 23 July 2010

Kite Burial

You've been gathered here today to help me bury my kite. Unfortunately, I'm the only one here – not him. Not because he couldn't make it, but because he wouldn't...For nearly two months now he's been struggling to keep our kite floating in the air. As you can see, he's failed. Was it because he was trying to fly so many other kites at the same time? Was it a conscious choice to let the string go...or an accident? It seems we'll never know: When last we spoke, I let him know that even though I would no longer hold my end of the string – that I had given up –, I would still be there for him, for us, as long as he managed to keep our kite flying in the blue sky. Alas, he let it go, and our beautiful kite nose-dived to the ground. My friends, help me bury this kite now, and with it, all the sorrow caused by this estrangement. I'll leave unburied all the scores and words inspired: They're too beautiful and harmless. Goodbye my friend – think of me as buried with what was once our cheerfully coloured kite.

Saturday, 17 July 2010

A Caixa Lilás

– Porque nunca queres brincar comigo?
– Porque és mais pequena e não sabes brincar ao que eu gosto de brincar.
– E porque não me ensinas a brincar ao que gostas de brincar? Eu quero tanto brincar contigo.
– Porque levaria muito tempo a explicar e nunca seria a mesma coisa.
– A mesma coisa que quê?
– Marta, deixa-me em paz e vai brincar com as tuas bonecas... – e como era costume fazer, Joel atirou um sopro mentolado à testa da irmã.
Resignada, Marta lá foi brincar com as suas bonecas, mas uma delas adoeceu e teve que a levar ao médico.
Ao atravessar a passadeira, esqueceu-se de olhar para a esquerda e para a direirta, e um carro vermelho com música aos berros fê-la saltar bem alto, qual Peter Pan rodopiando no ar, até à magestosa cambalhota mortal. Wheeeeeeeeeeee!!! Felizmente Marta voava tão rápido que mal deu para sentir a força que pode ter um Porche vermelho que circula a mais de cento e cinquenta kilómetros por hora, dentro de uma cidade...
*
O pai, a mãe, os avós, tios, primos e amigos estavam destroçados. Joel foi o único que não chorou, mas por dentro também se sentia destroçado. Como não estaria? Então não fora ele que a mandara embora? Se ao menos tivesse deixado a Marta jogar com ele à playstation naquele dia malfado!
As lágrimas e o choro esgotaram-se na casa de Joel onde passou a reinar o silêncio...

*
Dissera aos pais que fazia 13 anos, que já era grande e não queria a festa da praxe. Pareceu-lhe ver um tremor de alívio nos olhos da mãe. Tinham-lhe prometido uma BTT de último modelo...Fingiu estar excitado.
A quatro dias do seu aniversário, Joel, aproveitando estar sozinho em casa, armou-se de coragem e entrou no quarto de Marta. Continuava cheio com um vazio abafado.
Sentado na cama da irmã, Joel pegou na almofada para a cheirar. Talvez se sentisse de novo o cheiro dela conseguisse alterar a realidade. Quem sabe?
Debaixo da almofada, um envelope branco com o seu nome e gaivotas e conchas desenhadas.
JOEL.
Era para ele.
As mãos tremiam-lhe ao abrir o envelope.

Mano Joel,
Parabéns.
Com o dinheiro da minha semanada fui à loja dos Chinas e comprei-te uma caixa de cor lilás, da cor da tua camisola preferida. Dentro da caixa estão três coisas: Um cristal de sal, um raio de sol e um sopro.
A Mãe anda sempre a ralhar contigo por pores demasiado sal nas batatas fritas – não compreende que não gostas de comida insonça. Eu compreendo. Também não gosto. Mas gosto menos que a Mãe ralhe comigo...Pensei que se tivesses esta pedrinha, a comida não ficaria tão insonça e não te ralhassem. Pelo menos por um dia.
No Inverno, apesar de ficares com os pés frios, passas muito tempo ao computador. Pedi ao Sol um raio para te aquecer os pés.
Queria dar-te um beijinho nos teus anos mas sei que não gostas de abraços e beijinhos. Por isso me despenteias sempre a franja com os teus sopros de pastilha-mentol. São beijos para ti! Sempre que te apetecer um, abre a caixa lilás.
Da Marta


Com os olhos marejados de lágrimas, Joel começou uma frenética busca à caixa lilás. Encontrou-a fundo no armário, junto do elephante Babaloo...
Uma caixa simples com uma tampa em forma de envelope, uma flor e as palavras «Made in China» a prateado...Com um soluço de alívio, Joel abriu a caixa, sentindo o sal das lágrimas na boca, o calor do sol a correr-lhe pelo corpo, e o sopro a abanar-lhe levemente o coração. Sentia-se aliviado por saber que, apesar dele nem sempre o ter demonstrado, a irmã soubera sentir o amor que realmente tinha por ela.



- COPYRIGHT/Registado no IGAC

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Friday, 16 July 2010

Escrevendo com Brinquedos...

Ali vai a Zebra Traçada, toda aperaltada com a crina penteada.
É o seu aniversário e vai haver festa no baú do quarto do Tomás. Muitos são os ilustres convidados: A troco de uma bebida refrescante o Mexicano Juan lá conseguiu convencer o Tubarão Azulão a dar-lhe boleia para atravessar o chão. O Urso Melcôt, o Hulk e o Coelho Branco (o amigo da Alice, sabes quem é?) vêm no carro antigo que está sempre estacionado na segunda prateleira a contar do chão.
Beep. Beep.
– Sai da frente, ó Dragão comilão!
– Comilão, comilão não, que agora ando só a cereais e feijão!

Um Picnic na Lua

Jessica acordou cansada e rabugenta hoje. Teve uma noite agitada: Queria porque queria fazer um picnic na Lua! O pai e a mãe ainda tentaram convencê-la que a Lua estava muito longe, mas da janela do seu quarto as bochechas da Lua estavam mesmo à mão de semear. Jessica também tinha um segredo: a Lua falava com ela. Não muitas vezes, mas as vezes suficientes para saber que a Lua realmente falava e era sua amiga. Da última vez que falaram, a Lua contou-lhe como era bela, como tinha muitas crateras para se esconderem e como tinha uma vista inigualável.
E foi assim que Jessica aceitou o convite para um picnic na Lua. À noite, depois da mãe lhe ter lido uma historinha, Jessica olhou para a Lua que espreitava pela janela, abriu os braços e abraçou a sua amiga. Tanto espaço! Tanta alegria! De manhã soube que realmente lá tinha ido porque encontrara um pedaço de Lua, azul metalizado, na palma da sua mão.

Texto escrito com algumas palavras do poema «Cavaleiro Monge» de Fernando Pessoa

Entre o Toninho e o seu herói havia uma semelhança e duas diferenças. A semelhança: viviam os dois rodeados de silêncio. Uma diferença: O silêncio do Toninho não era uma opção. A outra diferença: O cavaleiro do Toninho caminhava liberto e direito, cavalgava por vales e montanhas, atravessava rios e oceanos. O Toninho nunca andou nem andará de cavalo, e já não caminha sozinho. Os seus rios não têm pontes. Os obstáculos são muitos.
Da sombra da cadeira, Toninho criou um cavalo e um amigo: um cavaleiro que viveria a vida que não podia viver. Tinha o corpo preso à cadeira de rodas e a voz encerrada no fundo de uma caixa. Porque ninguém o ajudava a cantar a sua canção?

Monday, 12 July 2010

Pequena história baseada nas imagens de 7 POSTAIS

Sapo verde de olhos vermelhos, como brilhas, como me atrais. Sapo verde de olhos vermelhos, tão bonito, tão letal. Não resisti. Morri. Num momento, minha alma, presa no alto da torre da igreja, vê os telhados frios e brancos da aldeia. Noutro instante, veleja no silêncio do alto mar, tentando fugir à força do passado. Porque não aceito que há coisas que têm que se deixar para trás? No túnel da verdade, espero que no lado de lá haja uma cabana e uma palmeira e um sol que brilhe, prometendo-me um calor, uma vida nova com desafios...Desafios, sem sapos de olhos vermelhos envenenados.