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Thursday, 23 September 2010

O Lago de Cisne

Com o lago todo para si, o orgulhoso cisne disfrutava de deliciosos momentos de silêncio. Ultimamente até que pareciam haver bastantes desses momentos...
De tempos a tempos a ideia de que esse silêncio não era natural atravessava o pensamento da ave, mas o facto é que, nesse silêncio, Cisne não tinha que lutar pelo seu espaço com mais ninguém e por isso não dedicava demasiado tempo a tais pensamentos. Agora ele reinava sobre o lago!
Viveu assim ainda durante uns tempos até que um dia, uns homens com um pau enorme com um laço de forca no topo, chegaram ao lago. Apanharam o cisne pelo pescoço, puseram-lhe uma anilha de metal no pé esquerdo e...raptaram-no.
O pobre Cisne tremia de medo. Como é que isto lhe podia estar a acontecer? Porque é que alguém quereria arrancá-lo à força da sua casa? Porque é que os outros animais não tinham vindo em seu socorro? O mais certo era estarem escondidos, deixando-o sózinho à sua sorte. Cobardes!
*
Cisne foi levado para um lago pequeno que se encontrava perto de uma enorme mansão. Sobre a casa e toda a propriedade havia uns raios laser, quase imperceptíveis que, como Cisne depresa descobriu, serviam para aturdir tudo o que tentasse trespassá-los.
Era isso. Havia sido feito prisioneiro numa prisão do tipo Guantanamo Bay. Uma coisa era certa, nunca conseguiria escapar.
*
Todos os dias um rapazinho vinha até ao pequeno lago onde passava horas a contar-lhe histórias que havia lido nos livros. Quando o seu reportório acabou, passou a inventar as suas próprias histórias: era um menino precoce, lá isso era.
Contudo, Cisne não queria ouvi-lo, ou então fingia não estar a ouvi-lo. Sentia-se miserávelmente triste naquele lago artificial – nunca havia querido sair do seu lago. Porque o haviam raptado? Tantas perguntas sem resposta!
Por isso, um dia, Cisne decidiu iniciar uma greve de fome, o que preocupou seriamente o menino. Como era penoso ver o antes forte e orgulhoso cisne a murchar dia a dia!
– Tenho que fazer alguma coisa – pensou para consigo o rapaz, enrrugando a testa com preocupação.
A perspectiva de perder o seu único amigo era desoladora. Mesmo assim, suplicou junto do seu pai para que levasse o cisne de novo para a sua verdadeira casa.
Temos que reconhecer que o pai do rapaz se esforçou por persuadir o filho do contrário. Contudo, o rapazinho estava resoluto na sua decisão e o pobre homem não teve outra alternativa senão conduzir o cisne de volta ao seu lago. Afligia-o ter de deixar a ave nessas águas tão poluídas e tóxicas, mas também não podia contrariar os últimos desejos do seu filho moribundo.
– Boa sorte! – sussurou ele ao libertar o pássaro.
Ao princípio o cisne estava extático, mas a pouco e pouco foi-se dando conta que não havia nenhuma outra forma de vida no lago. Havia algo terrivelmente errado e sabia que à semalhança do que acontecera aos outros animais, também ele não seria capaz de sobreviver naquele sítio.
De repente, começou a aperceber-se da dura e triste realidade: as peças começavam a encaixar e conseguia ver as coisas claramente. Afinal de contas, não havia sido sequestrado mas sim resgatado.

Como tinha saudades do menino e das suas histórias!
Foi ao tomar consiência de como elas faziam falta, que Cisne decidiu regressar. Voou e voou até que por fim viu o telhado vermelho e o pequeno lago por baixo dele. Lembrava-se do choque eléctico que em tempos sofrera ao tentar escapar e não tinha ilusões de que o que ía fazer era realmente perigoso. Mas tinha que arriscar.
E assim foi...Mergulhou, sem pensar duas vezes, e lá foi ele a pique.
Um choque dolorosamente electrificante atravessou o seu já frágil corpo. Lutando contra a dor quase incapacitante que se assenhoreava do seu corpo, continuou com a sua descida vertiginosa, dirigindo-se exactamente para onde o menino se encontrava deitado de costas. Com um baque surdo, aterrou mesmo ao pé do seu amigo, conseguindo ainda poisar a cabeça sobre o ombro do rapaz.
– Sabia que voltarias, meu amigo. – disse o rapaz com um sorriso esmaecido ao mesmo tempo que abraçava Cisne.
E foi assim, entrelaçados braço em asa, asa em braço, que o rapaz e o cisne foram encontrados, deitados sobre a mesma rocha onde o miúdo costumava sentar-se a contar as suas histórias...ambos dormindo o sono eterno.

- COPYRIGHT/CONTO REGISTADO NO IGAC

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2 comments:

  1. Se eu pudesse
    Ser o cisne do teu olhar
    Esbelto sereno em águas esvoaçar
    E no canto tivesse
    Mas não tenho asas
    Se eu pudesse
    Sobre as águas voar
    De lágrimas fizesse
    Queimar fogo líquido com que abrasas
    Lago dos olhos azul a brilhar
    Mas não tenho asas
    Se eu pudesse
    No espelho melodia cintilar
    De risos sinfonia em prece
    Sonhos húmidos como brasas
    Que de fogo intenso possa sonhar
    Se eu pudesse
    Contigo voar
    Mas não tenho asas

    musa

    ana barbara santo antonio
    http://anabsantoantonio.blogspot.com/

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  2. Ana Bárbara sinto-me lisonjeada por o meu Cisne merecer um poema teu. Resta-me aceitar e agradecer graciosamente...O teu poema emocionou-me! Muito obrigada.

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