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The Magical Pool

For my goddaughter Lara. A beautiful ray of sunshine. It was very early in the morning and Otto the Octopus was still sound a...

Sunday, 2 January 2011

Amigos de Tempestade

          'Socorro, socorro,' gritava uma pobre formiga vermelha, enquanto tentava lutar contra a corrente. Já haviam passado por ela duas lagartas numa folha de amoreira, um sapo de pintas vermelhas em cima de uma enorme folha de nenúfar, e umas quantas supostas-amigas formigas, umas em cima de pequenos ramos de àrvore outras sobre folhas compridas de chá príncipe. Para sua infelicidade, ninguém havia parado para a ajudar. As suas forças estavam a chegar ao limite, e a sua moral encontrava-se afogada pela dôr da insignificância da vida, da filosofia do salve-se-quem-puder, e da comprovação em pessoa da velha teoria darwiniana da sobrevivência dos mais fortes...Até entendia a atitude das lagartas, pois se fossem amantes não quereriam um terceiro bicho a desestabilizar o equilíbrio da relação...e da jangada, porque ambas eram bastante avantajadas– como havia conseguido reparar numa coisa tão fútil numa altura tão desesperante da sua vida, isso, bem, superava-a! Quanto ao sapo, pensando melhor, talvez tivesse sido pior se parasse, porque seria como sair de uma alhada para se meter noutra, pois esses anfíbios estão sempre a tentar encher o papo, quer tenham fome quer não, com aquela língua aterradora, pegajosa e veloz como um chicote, como se a alimentação fosse mais um hobby do que uma necessidade básica. No entanto, o que mais a entristecia e a enraivecia ao mesmo tempo, era que nenhuma das outras formigas havia sequer tentado agarrar-lhe a pata, e na última folha ela bem que tinha visto a Carolina, a Jacinta e o Gregório, os seus ditos melhores amigos.
          Dizem que nos últimos milésimos de segundos antes de se passar para o lado de lá – onde quer que isso seja – se vê passar a vida inteira pela frente. Qual quê! Os únicos pensamentos que ocorriam à pobre formiga Aurora, nesse momento eram estas tristes e filosóficas constatações. Bom, já não valia a pena lutar, Já não tinha forças! A chuva caía com força, empurrando-a para baixo as poucas vezes que conseguia vir ao de cima respirar, e a corrente era tão forte que a fazia rodopiar mais rápido do que um corridinho à Portuguesa...Que pena! Não era assim que imaginara a sua morte: o ideal seria indubitavelmente partir desta para melhor enquanto as pálpebras descansavam, mas na realidade sempre acreditou que 'bateria a bota' carregando um último amêndoím, deixado cair por um ou outro turista mais guloso. E até que não seria uma morte má, se fosse um daqueles amendoins torrados, cobertos de mel e sal. Uma doce morte aromática...Nada mal.
~
          'Hey, acorda, acorda. Não me obrigues a ter que te fazer respiração boca a boca, !' diz a cigarra Nandinho, enquanto virava a formiga de lado e lhe dava umas pancadinhas nas costas. 'Vamos, se morresses seria esforço desperdiçado. Olha que quase me matei para te salvar o pescoço! Vamos, deita cá para fora toda essa água...bom, parece que vai ser mesmo necessário, Mas olha que se acordares entretanto, nem penses que vou casar contigo só porque te beijei...' e depois de dizer isto, enche o peito de ar e prepara-se para dar os primeiros socorros à formiga que parecia não estar nem-cá-nem-lá.
          'Baaaarf,' cospe-lhe a formiga mesmo em cheio na cara, começando em seguida a tossir descontroladamente. Apesar de não ser necessário, com a quantidade de água que caía do céu, Nandinho leva instintivamente a mão à cara para se limpar.
          'Bom, parece que hoje é o teu dia de sorte.' diz a cigarra à formiga, 'Foi por um triz, mas já estás de volta.'
          'Ai, afasta-te de mim...Que estiveste a fazer todo dobrado sobre mim?' grita a formiga Aurora, mal recomposta do susto de morte e já assustada de novo.
          'Ía aproveitar-me de ti, que julgas que ía fazer? Não vês que neste momento, como não há mais nada a fazer senão tentar sobreviver, é exatamente nisso que estás a pensar que tinha em mente fazer, sua formiguinha tonta e convencida!' A cigarra Nandinho não sabia se estava zangado, embaraçado ou ofendido. O mais certo era que estaria a sentir todas essas emoções ao mesmo tempo. Mas não havia tempo a perder com parvoíces. Virou as costas à formiga e voltou a prestar atenção à direcção do vento...
          Entretanto, a formiga Aurora recuperava o fôlego e começava a lembrar-se da sua quase-morte e dos amigos que a haviam abandonado à sua sorte. Estavam a lutar pela sua vida, é certo, mas eles nem uma tentativa de a socorrer fizeram! Ela nunca os teria deixado assim, sem ao menos tentar atirar-lhes um pêlo de rabo de cavalo para que tentassem agarrar-se. Que desilusão. E quem era este estranho, um tanto ou quanto arrogante? Está claro que a havia salvo, mas parece que lhe faltava um pouco de 'chá', por assim dizer...Estava escuro e com a chuva ela não conseguia ver bem o que se passava.
          'Hey, tu aí, se já te sentes melhor passa para o outro lado da folha, Temos que equilibrar isto, senão vamos os dois outra vez para dentro do riacho...' A voz de Nandinho era forte, segura do que dizia, e o tom não admitia contradição.
          Nem tão pouco à formiga Aurora lhe passaria pela cabeça começar a armar-se em aqui-ninguém-me dá-ordens pois sabia que a situação era delicada, e pelo menos o seu companheiro parecia entender algo sobre navegação. Ou assim o esperava.
          Umas boas horas passaram assim à deriva, mudando de lugar de vez em quando para combater a força das águas, tentando não deixar demasiada água na folha de violeta, para esta se manter a flutuar. Em silêncio, os dois lá conseguiram sobreviver ao dilúvio, e quando chegou a madrugada, já a chuva e o vento tinham parado, e o riacho estava calmo e sereno. Sereno e sem uma brisa no ar, de tal forma que a folha-recentemente-promovida-a-jangada estava literalmente paralizada.
          'Bom, parece que nos safámos desta. Agora o melhor é dormirmos um pouco...' Nandinho nem terminou o que estava a dizer, pois viu os olhos da formiga abrirem-se como que de susto ou de indignação. Não dava para perceber. 'Sabes, ou és uma formiguinha muito tonta ou muito pervertida...O que eu estava a dizer é que precisamos de recuperar as nossas forças, e por isso precisamos de dormir, cada um no seu canto, entendido? Até parece que depois de uma odisseia destas ainda teria forças para mais fosse o que fosse. Realmente, há cada uma!'
          Corada até à ponta das orelhas, Aurora enrolou-se no seu cantinho e tentou adormecer. Tentou – tempo verbal usado correctamente – pois não conseguia agora deixar de pensar que havia sido mesmo tonta em julgar que a cigarra lhe queria fazer mal. Afinal de contas, tinha-a salvo e ela deveria estar-lhe grata. E com estes pensamentos, deixou-se vencer pelo cansaço e dormiu umas boas cinco horas seguidas. Teria até dormido mais, se não tivesse sido salpicada com água pelo seu companheiro de viagem.
          'Hey, para com isso! Não achas que apanhei com água suficiente ontem?' disse irritada.
          ´Pois era isso ou então ir até aí, e certamente que pensarias que estava a tentar seduzir-te outra vez...' parou um pouco para apreciar o corar da formiga, e prosseguiu num tom mais sério, ' Temos que começar a pedalar e tentar chegar a um lugar mais protegido, senão desta vez arriscamo-nos a morrer estorricados pelo sol. Ainda é cedo, e os raios de sol apenas lampejam levemente...Há que evitar os raios intensos da tarde.' E dizendo isto, pôs-se a cantarolar à medida que usava a pata dianteira esquerda como remo.
          Em silêncio, Aurora começou a fazer o mesmo, do lado direito da folha. Mas não era formiga para estar muito tempo calada e o cantarolar da cigarra começava a pô-la nervosa.
          'Oi! Você aí...' chamou a formiga.
          'Chamo-me Nandinho, sou a cigarra Nandinho.'
          'Muito bem, Sr Nandinho...pode dizer-me porque está tão contente? Não vejo graça nenhuma no que nos aconteceu, digo, continua a acontecer-nos...e mesmo nenhum motivo para se estar a cantarolar num momento destes.'
          'Basta, Nandinho...Pois, não sabia que cantava assim tão mal...' continuou a cigarra, fazendo uma pequena pausa; esperava que a formiga lhe dissesse que não, que até cantava muito bem, mas como ela não dizia nada, prosseguiu, '...cantar ajuda a concentrar-me no que estou a fazer e torna todas as tarefas mais agradáveis. Porque não te juntas a mim?
          'Ugh!' foi o único som que a formiga proferiu.
          E assim, em silêncio, melhor, no silêncio-quebrado pelo canto da cigarra, continuaram os dois a pedalar. Entretanto, a formiga, esgotada, teve que parar e, fingido dormir, pôs-se a escutar o canto da cigarra, enquanto esta continuava a remar, sempre em frente.
          A formiga Aurora estava um pouco confusa. A cigarra Nandinho parecia contradizer tudo o que lhe haviam contado sobre as cigarras, isto é, que eram preguiçosas e irresponsáveis...que preferiam passar o tempo a tocar música e a cantar do que trabalhar, para no Inverno não terem que ir de porta em porta apelar à caridade dos outros bichos que, esses sim, tudo haviam feito para armazenarem os alimentos necessários para se manterem vivos e bem nutridos no Inverno. Definitivamente esta cigarra parecia ter mais força do que ela e ainda por cima fazia-o de bom grado e cantarolando. Ela sempre fora trabalhadora mas, verdade seja dita, fazia o que tinha que fazer, porque tinha que o fazer e estava sempre contrariada por ter que fazê-lo, pois ao fazê-lo não tinha tempo para mais nada. Nem mesmo para tentar descobrir o que mais poderia estar a fazer se não tivesse que fazer o que tinha que fazer...Um raciocínio um pouco complicado, mas isso era inato nela.
          Passado um bocado bem longo, a cigarra acabou por fazer uma pausa. Estava a transpirar tanto que parecia que tinha uma núvem a chover-lhe em cima. Só de imaginar semelhante coisa fez com que a formiga se desatasse a rir descontroladamente.
          'O quê? Que foi agora?' perguntou a cigarra confusa.
          'Nada, nada, são só tonterias minhas. Deve ser do calor.'
          'Já que estás mais faladora, posso saber como te chamas?' pergunta a cigarra.
          'Um nome é só um nome, não vale grande coisa, especialmente quando o tempo que os bichos passam juntos é limitado, como é no nosso caso.' diz a formiga.
          'Tens razão, mas o tempo também é abstracto. Um minuto de felicidade sabe sempre a pouco, enquanto o minuto em que estamos à espera de saber se um familiar ou amigo nosso vai sobreviver ou não, pode tornar-se numa penosa eternidade. Além do mais, agora só estamos nós os dois, e será melhor chamar-te pelo nome do que simplesmente por formiga, não achas?
          A formiga Aurora ainda estava atordoada com a profundidade da reflexão sobre a duração do tempo. Era verdade, mas nem ela nem nenhuma outra das suas companheiras alguma vez haviam tido a vontade de pensar sobre quanto tempo durava o tempo, quanto mais chegar a uma conclusão tão subjectivamente-realista como a que acabara de ouvir.
          'Hey! Estás a ignorar-me outra vez? Que foi que fiz desta vez?'
          'Ãh? Desculpa, estava a pensar noutra coisa.' Gagueja a formiga, 'Tens razão, aqui não temos mais remédio do que chamarmo-nos pelos nossos nomes. Sou Aurora.'
          'Um prazer, Aurora, um servo de Vossa Senhoria!' diz a cigarra fazendo uma vénia, meio a sério, meio no gozo.
          'Er...Nandinho,' diz Aurora de novo com as faces ruborizadas, 'acho que lhe devo um agradecimento por me ter salvo. Se não me tivesse puxado da água acho que não teria sobrevivido. Obrigada..'
          Desta vez foi a cigarra a ficar sem jeito. Nunca soube como receber elogios nem agradecimentos de forma graciosa, e muito menos vindo de uma formiga, pois todo o mundo conhece o desprezo que as formigas sentem pelas cigarras. 'Bom, isso agora não é importante,' disse, tentando fazer uma voz de indiferênça, 'o importante é que ambos conseguimos sair da tormenta sãos e salvos, e agora apenas temos que concentrar-nos em chegar a terra firme.'
          Aurora sorri, notando o embaraço da cigarra, mas tem a gentileza de não fazer nenhum comentário irónico.
          'Cigarra Nandinho...?'
          'Sim?'
          'Onde aprendeste a cantar? Sei que vocês, as cigarras, passam os dias a cantar...(ía acrescentar, em vez de trabalhar, mas conteve-se a tempo), mas o teu canto soa diferente, não sei, como que mais polido e também mais exótico.'
          Nandinho pareceu ficar mais alto com o orgulho que sentia. 'Pois, na realidade, eu quero ser compositor, mas como há muita competição entre as cigarras, decidi que iria percorrer o mundo para ouvir e aprender o canto das vários tribos de cigarras, e assim compôr novas músicas. Tenho sido sempre aceite pelas diferentes tribos, pois...' hesitando um pouco, prosseguiu, 'há sempre lugar nas differentes tribos para mais um partilhar as tarefas que temos de fazer no dia-a-dia...'
          'Quer dizer que a história das cigarras passarem o tempo a cantar é mentira?' pergunta Aurora, cada vez mais intrigada.
          'Bom, é e não é. É assim, nós as cigarras podemos ter muitos defeitos, como o de sermos competitivas como já referi, mas trabalhamos muito e somos uma espécie muito alegre e dotada para a beleza sonora.' Como não viu nenhum sinal de aborrecimento ou ironia da parte da formiga, prosseguiu, 'Ao longo dos anos os nossos cientistas foram também observando que a música nos tornava mais produtivos e proporcionalmente mais felizes. Isso, aliado à nossa baixa média de expectativa de vida adulta, acreditamos que os dias são para serem vividos como se fossem o último...e começamos e terminamos os dias com o canto de agradecimento à vida, como um celebrar do nosso renascimento diário. Trabalhamos, mas também tentamos desenvolver outras áreas que nos dão prazer, o que, para a maior parte de nós, é o canto...E que fazem vocês, as formigas, nos vossos tempos livres?
          A formiga Aurora sentia-se pouco confortável com a pergunta. 'Bem, sabes, trabalhamos de sol a sol, para que não nos falte nada no Inverno. E de facto, conseguimos sobreviver ao mais severo dos Invernos...Mas tempos livres, isso não temos, não. Quando chegamos a casa, já está na hora de dormir...'
          'Mas, e no Inverno? Aí já não têm que trabalhar...como passam os dias?'
          'Basicamente comemos e dormimos,' disse Aurora um pouco desalentada ao verificar que afinal a sua vida poderia estar a ser mal aproveitada.
          'Ah! Têm uma vida um pouco diferente da nossa, lá isso têm. Até já começo a compreender a certa hostilidade que sentem em relação a nós...'
          'Sim, parece que ambas as espécies têm umas ideias pré-concebidas e erróneas acerca dos outros.' Acrescentou a formiga, um pouco triste.
          'Bem,' diz Nandinho com uma voz alegre, um pouco forçada pois a conversa estava a ser um tanto pesada, 'parece que estou a ver terra, além...Começamos de novo a pedalar? Mas agora trocamos de lugar, senão ficaremos com um braço mais musculado do que o outro, concordas?'
          'Sim, faz sentido.'
          Mais uns momentos de silêncio-quebrado pelo canto da cigarra.
          'Nandinho,' interrompe Aurora depois de algum tempo, 'já pensaste para onde vais quando chegarmos a terra.?
          'Humm! Na verdade não. Quase nunca sei para onde vou até que chego aos lugares. E aí nunca é uma coisa permanente...'
          'E isso não te cansa?'
          'Quero ser o melhor compositor entre as cigarras e sei que só assim poderei aprender novas melodias e ritmos...Mas também nunca fiquei muito tempo num lugar porque não há nada que me faça sentir que pertenço ali...Não sei explicar.'
          'E que sucederá quando já fores velhinho e não conseguires viajar de um lado para o outro?'
          'Pois não sei. Nunca pensei em tal. Como te disse, as cigarras adultas não vivem assim tanto tempo...Se calhar nem chego às sete semanas de vida, que é o máximo de idade que uma cigarra pode alcançar...e tu, Aurora, quais são os teus planos?'
          'Pois, não sei, nunca me separei do meu exército. Não sei o que vai ser de mim, se sobrevivirei sozinha. Não tenho conhecimento de nenhuma formiga que alguma vez o tenha conseguido. Mas mesmo que encontrasse os meus companheiros, acho que não os seguiria, prefiro morrer sozinha a voltar a trabalhar com eles. Eles nem sequer tentaram salvar-me, sabias? Passaram por mim quando me estava a debater naquelas águas frias e revoltosas e nem me lançaram um pêlo de rabo de cavalo. E isso é algo que todas as formigas levamos enroladas numa das patas...para o caso de uma de nós cair por uma ribanceira abaixo. Não estava no fundo de uma ribanceira, mas podiam ao menos ter tentado...' A voz de Aurora falhava um pouco, tal era o dissabor da recordação.
          Uma formiga sozinha no mundo não sobreviveria nem um minuto. A cigarra sabia disso muito bem. Tinha aprendido isso numa classe de sobrevivência. Que dizia o manual? 'Se atacadas por formigas, as cigarras devem tentar dispersá-las, pois sozinhas nada poderão contra nós, e sozinhas, igualmente, nunca encontrarão o caminho de volta a casa, acabando por morrer de tristeza ou devido à sua falta de técnicas de sobrevivência quando isoladas em terreno inóspito.
          'E que tal juntares-te a outra colónia de formigas?' Sugeriu a cigarra.
          'Que pouca informação tens sobre nós...' diz a formiga cada vez mais deprimida 'cada grupo é chamado 'exército' porque estamos sempre prontas para lutar pelo nosso território. Nenhuma formiga sai viva de território vizinho quanto mais de um assim de tão longe...e sozinha!'
          'Hey! Mas não te preocupes comigo, ensina-me a tal canção de agradecimento à vida e farei como as cigarras...cantá-la-ei de hora a hora durante o tempo que me restar. Se calhar até descubro algo que goste de fazer antes de morrer: isso já seria muito mais do que se vivesse uma vida inteira na minha colónia.'
          E foi assim que a formiga Aurora aprendeu a canção das cigarras. Não cantava muito bem, lá isso não, mas o empenho e o sentimento eram tal, que os tímpanos sensíveis da cigarra Nandinho não sofreram nenhum golpe irremediável.
          A formiga Aurora cantava com toda a sua alma e coração. Havia aprendido algo. As cigarras adultas vivem apenas entre quatro a seis semanas e sabiam que tinham que aproveitar esse tempo ao máximo. Bem aproveitado, esse tempo poderia parecer uma eternidade, disse para consigo mesmo, lembrando-se da conversa da cigarra sobre a subjectividade da duração de um minuto. Havia uma leve inversão na sua teoria, com cariz mais positivo, mas se resultava de uma maneira, poderia resultar igualmente bem do modo inverso, não era assim?
          A média de vida de uma formiga será de 45 a 60 dias...Portanto, ela, com 39 dias, tinha mesmo que deixar de desperdiçar a sua vida. Especialmente agora que se encontrava mais isolada do que nunca do resto da sua colónia, ainda menos hipóteses teria de chegar aos 40, quanto mais aos 60.
~
          Finalmente em terra firme! Que sensação agradável. Tanto a formiga Aurora como a cigarra Nandinho estavam extáticos de emoção.
          'Bom, conseguimos, não?' pergunta Aurora ainda um pouco incrédula.
          'Claro que sim. Conseguimos os dois. Um belo trabalho de equipa!' responde Nandinho.
          'Escuta! Acho que tens alí mais cigarras...que sorte, nem terás que caminhar muito para lá chegares.'
          'Que bom! Isto é o que se chama ter sorte!' Nandinho não cabe em si de contente.
          'Boa sorte, Nandinho...e mais uma vez, obrigada por me teres salvo, e por tudo que me ensinaste. Tens uma coração do tamanho da Lua.' Aurora não sabia donde vinham nem exactamente quais eram as emoções que estava a sentir naquele momento. Nunca tivera que despedir-se de ninguém.
          'Foi um prazer, e como disse há pouco, acho que nos salvámos um ao outro. Não sei se teria conseguido chegar até aqui sem ajuda.' Mal acaba de dizer essas palavras quando se surpreende com a rapidez com que a formiga se dirige a ele e o abraça. Um abraço tão forte que Nandinho julgou que uma das suas asas iria 'ficar de molho' durante uns tempos...Mas que abraço! Ele nunca tinha recebido um abraço assim! Tão poderoso, que quase lhe deu vontade de não ir ter com as outras cigarras. Mas que mais poderia fazer? De coração apertado, com aquela sensação de que ainda há pouco havia encontrado uma amiga para a vida e que já a ía perder para sempre, começou a despedir-se.
          'Adeus, amiga Aurora. Fica bem. Toma bem conta de ti, está bem?'
          'Sim. Tu também...Sabes, acho que já és o melhor compositor do mundo e arredores...Adeus.' E virou-se de costas para esconder uma lágrima que lhe escorria pela face, Aurora começa a dirigir-se em direcção oposta, para parte nenhuma.
          'Espera, Aurora, espera! Tanto eu como tu estamos um pouco perdidos ainda. E se vieres comigo até à nova tribo e mostrares como até já aprendeste a canção do agradecimento à vida?' Nandinho estava eufórico, como não lhe havia ocorrido tal ideia antes? 'Sabes, nós as cigarras temos um complexo de inferioridade em relação a vocês formigas...e se uma formiga, por exemplo, tu mesminha, fosse até elas e mostrasses que na realidade até nos aprecias, tenho a certeza que aceitariam que vivesses connosco. Isto é, até decidires se queres ficar ou partir. Que dizes? Tentamos?'
          'Tentamos, sim!' diz Aurora, lançando de novo as suas patas em volta do pescoço de Nandinho. Mas, e se não me aceitarem? E se tu decidires partir de novo?'
          'Calma, uma coisa de cada vez. Serás aceite ou eu não seja o melhor compositor do mundo e arredores.... E se eu decidir partir de novo, então poderás decidir se me queres acompanhar – aqui houve uma brevíssima pausa de olhar intenso – ficar com as cigarras ou ir de novo em busca da tua colónia.' Mas vamos lidar com um desafio de cada vez, à medida que forem surgindo, ok?
          'Ok. Ok. Ok.' Nunca Aurora se havia sentido tão feliz.
          De mãos dadas, Nandinho e Aurora caminham em direcção do arbusto do fundo do caminho.
          Que visão preciosa, dois seres tão distintos un do outro, quase que se poderia dizer, de planetas diferentes, caminhando lado a lado e disfrutando de um sentimento comum: o Amor à Amizade.
          '…Ah, só uma coisa antes de chegarmos,' diz Nandinho um pouco receoso da reacção da sua companheira, 'quando cantares a nossa canção...tenta baixar o tom para aí uns 5 decibéis, pode ser?'


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