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Tuesday, 5 April 2011

PEQUENA HISTÓRIA: Partes 1-6, por Fernando Silva e Paula

Hoje quero falar-lhes de outra história - da primeira história que eu e um amigo meu, Fernando Silva, escrevemos há quase um ano e meio e que tem estado, tristemente, isolada em ficheiros dos nossos computadores.  Resolvemos que já estava na altura de sacudir a poeira de bits e bytes desta história. 
Manteremos o título provisoriamente até encontrarmos um mais adequado – PEQUENA HISTÓRIA (16 capítulos) simplesmente não faz jus à nossa obra. Sim, apesar de ter um carinho especial por ela, o meu sentido crítico também me diz que conseguimos uma história engraçada e acima de tudo original. Ficaremos à espera do vosso feedback.

Parte I
__________________________________ por Fernando Silva
          – Oi… Juno?!
          – Sim… (…)
          – Escuta… não ouves? São…
          – Águias!!!
          – Águias… Juno! Duas águias reais… há séculos que não via uma… podemos ter encontrado uma pista… podemos estar no caminho certo…!
          – Achas?!
          – Claro! Estamos a caminho de casa… temos de estar… encontrámos o caminho… fi-nal-men-te…! Juno… Juninho… segura a rota… ainda por estes dias havemos de ver o Sol…! Sou eu que te digo, eheheh…!
          – Eureka…! Comandos sob controlo! Mick, há mais de quarenta e tal séculos que não via um pássaro… nem um pássaro, nem nenhum ser respirante, daqueles que se movem sozinhos… desde que fomos abanados pela explosão…! Vamos…

          Ano 6320. séc. LXIV.

          Desde a explosão do planeta Terra em 2009… que Mick e Juno não sentiam a presença de nada nem ninguém. O planeta desintegrou-se depois do último Ser a abandonar, naquele fatídico 20 de Outubro. Era quase meia-noite. Depois do inesperado regresso de Plutão ao sistema solar, uma força galáctica travou os anéis de Saturno, o que fez com que todos os outros planetas ficassem a rodar, num constante e perpétuo equilíbrio sideral. Felizmente ninguém se magoou, mas a população terráquea, incluindo peixes e insectos, foi expulsa pela força da rotação e ficou espalhada pelo espaço.
          Alguns conseguiram encontrar um amigo, como Mick e Juno, que se viriam a cruzar 12 séculos depois, mas outros ainda pairam sozinhos na imensidão do éter cósmico.
          Curioso, é que mais ninguém precisou de se alimentar. As radiações da Via Láctea e Andrómeda, ricas em todo o tipo de nutrientes conservaram os corpos e as mentes de perfeita saúde. Também, a invasão dos viajantes terrenos em regiões onde não há tempo, nem nada que o meça, permitiu que ninguém envelhecesse - Adquiriram imunidade temporal… qual Peter Pan… e a ausência de vícios limpou-lhes o cérebro, o conceito e as intenções. Muito provavelmente, porque quem vive para a eternidade, não quererá acumular riqueza para a reforma. Que reforma…?
          Um dos sentimentos que resistem ao tempo, ou à falta dele, chama-se saudade. Numas vezes, funciona como uma chamada de atenção ou um reencontro do homem com o seu passado … noutras, é uma missão. A missão de retornar… de voltar às origens… dar descanso aos olhos e conforto à alma. Voltar a casa… e serão os primeiros a encontrar o caminho de regresso?

Parte II
__________________________________ por Paula

          É verdade, tal como Kierkegaard disse uma vez, ' A vida tem de ser vivida para a frente, mas apenas pode ser compreendida olhando-se para trás.' Contudo, aqui estavam eles, presos no limbo do presente, desejando que o seu passado apanhásse o seu presente, ou que o presente se encontrásse com o passado...ou, simplesmente, sonhando com a ilusão de uma missão quase impossível que até poderia nunca chegar ao fim.
          O entusiasmo de Juno parecia mais efusivo do que na realidade era. Ela era uma céptica: esta demanda interminável para regressar a casa parecia-lhe desesperantemente sem esperanças. Casa? Que Casa? Esta não havia sido desintegrada há séculos atrás? Claro que ela não podia compartir estes pensamentos com o pobre do Mick. Como é que ela poderia estragar um momento zen como aquele? Além do mais, eles haviam visto duas águias a voarem cerca deles. Duas. Não uma, não três, mas duas águias. E ela e o Mick também faziam dois, embora às vezes ela chegasse a pensar que na realidade eram uma só pessoa. Se os seus caminhos não se tivessem cruzado outra vez, será que ela seria Um ou apenas metade ou um terço ou mesmo um quinto de uma pessoa? Quanto de cada coisa ou pessoa é necessário para fazer Um – isto quando não há mais ninguém por perto? Ela já não sabia a resposta...
          Noutro recanto do vasto espaço encontrava-se outro corpo a flutuar, ligeiramente fora de control.
          – Se ao menos houvesse um travão onde se pudesse pisar! Whoa! Essa foi a última vez que tento pôr-me em posição de feto! E dizem - melhor, diziam - que enrolar-se assim te dá uma sensação de protecção! Qual quê! É mais parecido a uma bola de bowling a deslizar a toda a velocidade por um corredor, só que o objectivo não é derrubar os 10 pinos com um strike de mestre...na realidade, tem de se evitar embater nas estrelas, rochas e sei lá que mais...De facto, esta foi a primeira e última vez que tento algo parecido, disso podem estar certos!
          O facto é que há muito que Kassandra havia perdido esperanças de encontrar outros humanos ou mesmo um lugar a que pudesse chamar lar. Os seus pensamentos sobre o passado estavam auto-censurados e ela preenchia os seus dias - dias? outro conceito que se havia tornado obsoleto com o passar do tempo - com pensamentos casuais e fortuitos como estes. Afinal ela tinha muito tempo nas mãos e não era como se pudesse ligar a TV ou o seu portátil...

Parte III
__________________________________ por Fernando Silva
          – Para onde, Mick… já não consigo avistar as águias…
          – Não! Olha a bombordo… o que será aquilo?!
          – Hum… deixa– me ligar os binóculos de visão cósmica… (…)
          – Parece um vulto, Juno… (…)
          – Mick… eheheh… é um vulto mesmo…! Nem sabemos o que será…
          – Talvez seja um fantasma…
          – Mick… é um vulto preto com pelos amarelos… meio arredondado…
          – Passa-me os binóculos, também quero ver….
          O “Juno & Mick Mobile” aproxima-se lentamente do tal corpo estranho, que neste momento, flutuava já a toda a velocidade em direcção aos nossos amigos….
          – Ollaaaaa…! Podiam-me dar umaaaaaa mãoziiiiiiinha, por favoooooor???? Se não nunca mais consigooo paraaaaaaaar…..
          – Segura-te…! Ahhhh escapou-se… Mick, rápido, segura o leme… temos de seguir o vulto…
          – Roger, comandande Juno! Com todo o prazer…
          – Está quase Mick… aí está… mais um pouco... para estibordo… dez graus … eiiiii… dá-me a tua mão…
          – Ahhhh…… uffaaaa! Estava a ver que nunca mais era nunca! Afinal, sempre foi sempre!
          – Olá, bem vinda a bordo. Omeu nome é Juno e este é o meu companheiro Mick! E tu quem és?
          – Olá… o meu nome é Kassandra! Importam-se de me chamar?
          – Olá Kassandra!
          – Olá Kassandra, tudo bem?!
          – Ahhhh… obrigado amigos…! Há que séculos não ouvia o meu nome…
          – Ehehehe… Kassandra… e tu vens de onde? (Juno)
          – Venho de Plutão-norte!
          – Nem é muito longe… eu andei por Cassiopeia quase muito tempo…. Depois encontrei a Juno por acaso… ali entre Andrómeda e Cygnus… (…)
           – Pois… eu andava à procura da Estrela Polar para tentar regressar à Terra… (…)
          – Muito bem… pois eu, Kassandra, não sei se já repararam mas sou uma bocadinho loura… também andei perdida uns séculos. Aproveitei para visitar uns sistemas novos… em Heridanus, encontrei uns seres muito giros… com três braços… (…)
          – A sério?!
          – Sim senhor, Juno! Digo-te eu, que sou Kassandra…! E vocês, podem dar-me boleia?
          – Claro… instala-te, amiga! (Mick) E contas-nos a história desses seres fantásticos?
          – Fantásticos e vaporosos!! Ehhh, malta fantástica e vaporosa… alguém tem horas que me diga?!?
          – Olha, passam 6320 de Cristo…! (Juno)
          – Ah, obrigado… ainda é cedo!...
          A tripulação do ex-“Juno & Mick Mobile”, agora elevado à categoria de “Juno, Mick & Kassandra Mobile” estão a postos. O novo recruta trouxe uma excitação extra a bordo… mas a viagem tem de continuar… the show must go on…
          – Comandante Juno, o Imediato Mick pede autorização para descolar…!
          – Eheheh… mas nós estamos mais que descolados, Mick!
          – Eu sei… mas sempre quis dizer isto! Meus senhores… acomodem-se… estamos novamente em movimento… por favor, agora que estamos sob a influência gravitassional de Júpiter… deliciem-se com a paisagem… e olhem para o anel… tem cores que não conhecíamos…!
          …. E, com mais um passageiro a bordo… a pequeno aparelho espacial parte em direcção de “sabe-se lá onde”… talvez à procura do velhinho planeta Terra… caso ainda exista… ou parte dele…! O ambiente na pequena (mas muito jeitosa) nave é um verdadeiro desassossego. Pela primeira vez, desde há muito tempo, seria possível voltar a trocar experiências… e falar de coisas novas… e diferentes.
          – … pois… nem queiram saber… aquela gente de Heridanus, os heridaneses são uns castiços… digo-vos eu que sou Kassandra, mas muito medrosos…! Há alguns que viajam muito… mas txxxxx… nem queiram saber como eles escrevem… é assim às voltinhas… até ficamos com a cabeça à roda…
          – E aquilo dos três braços? (Mick)
          – É por causa das dúvidas.
          – Das dúvidas?! (Juno e Mick)
          – Sim senhor…! Como têm muitas dúvidas, estão sempre a coçar o queixo e a cabeça, mas precisam dos outros dois braços livres…. Um para a caneta e outro para rodar o papel…!
          – Ahhhh…. (Juno)
          – Ahhhhhhhhhh…. (Mick)
          O duo que passou a trio navega sem rumo, mas com um destino em mente. Seres medrosos com três braços e cores diferentes das que conhecemos, passaram de mito a realidade.
          Ainda sob influência de Júpiter … o JMK (Juno, Mick e Kassandra) Mobile… fazem uma rasante aos anéis do planeta gigante. O Mick queria até levar um bocadinho de pedra de anel para recordação… talvez até para uma… lareira!
          – …podia fundar as “Lareiras Jupiterianas”, Juno. Ao regressar à Terra, teremos de procurar ocupação…
          – Mas só podíamos levar uma pedrinha, Mick! E depois?
          – Então, depois fazia as outras de plástico, sei lá….!
          – Lareiras de plástico?! Com certeza, eheheh…!? Mas temos de esperar que alguém faça a tal fábrica de plásticos primeiro….
          – Vocês têm a certeza que ainda pode haver água salgada…! Digo-vos eu, que sou Kassandra, que vi passar tanta gota, tanta gota… que se ainda houver água, será um marzito ou outro… só com uns cinco ou seis metros de profundidade…!
          – Se ao menos houvesse isso, amiga… era sinal que havia Terra… e que poderíamos procurar os nossos amigos, os animais, as músicas, as pinturas… (…)
          – Juno?! Estás a delirar? (Mick)
          – Não… estou só a sonhar…! Em frente…
          – …e vocês sabiam que os dias aqui tem muito tempo… e lá em Heridanus, e até em Hydrus… havia seres-do-claro e seres-do-escuro… digo-vos eu, que sou (…)
          – Kassandra!!! (Juno e Mick)
          – Então, até tem uma vantagem… os guardas-nocturnos não precisam de mudar de sítio… (Mick)
          – Mas os óculos escuros vendem-se muito mal...! Digo-vos eu que sou (…)
          – Kassandra! (Juno e Mick)
          – ... mas em compensação as lâmpadas vendem-se muito bem…eheheh… Mick, meu Imediato, podes descolar…!
          – Mas, meu Comandante… estamos a flutuar…!
          – Ok… mas há que séculos que eu queria dizer isto…!
          O JMK está em órbita… o JMK continua em órbita….
          … quando quiserem chamar por mim, por favor chamem-me pelo nome, é que vocês nem sabem quanto tempo andei sozinha por aí… digo-vos eu (…)
          – QUE ÉS KASSANDRA…!!!
          – Eheheheh…
          – Ehehehehheheheh….
          – Eheheheheheheheheheheh…. Obrigadinhos….!
          – Juno… olha!

 Parte IV
____________________________________ por Paula
          E ali, perdido em pensamentos profundos estava Theo, sentado numa folha de nenúfar - cujas proporções descomunais apenas recentemente lhe haviam sido realçadas – com uma mão no queixo, outra segurando uma espécie de pena dourada, e a terceira mão, pronta para começar a rodar a folha em branco no sentido contrário aos ponteiros do relógio. Isto agora fazia parte da sua rotina diária - ou seja, a escrita – desde que aquele ser estranho, que se dizia ser mulher-humana, havia desaparecido da superfície de Heridanus.
          Estava a escrever a Kassandra, como havia feito dia-após-dia desde o seu misterioso desaparecimento, consciente que muito provavelmente os seus caminhos nunca mais se cruzariam, ao menos não na sua reduzida média expectativa de vida de 72.6 milhões de anos, e que ele nunca lhe poderia dar as cartas em pessoa. A sua única esperança seria que um dia uma das suas cápsulas-mensagem de quartzo chegassem até ela.
          Havia gostado dela porque tinha sido capaz de abanar até então a sua inabalável percepção da realidade, temera-a pela mesma razão.
          Foi ela que disse que o seu meio de transporte não era mais do que uma gigante folha de nenúfar. Será que havia outros transportes aquáticos flutuantes de tamanhos, formas e cores differentes? Certamente ele nunca tinha visto nenhum nas suas viagens pelo espaço. Será que ele se sentiria suficientemente confiante para subir para cima de um que fosse mais pequeno ou - as Forças Cósmicas nos livrem de tal coisa! - de uma cor differente? Tantas perguntas. Tantas dúvidas!
          Kassandra...apenas 150 anos luz haviam passado desde que ele a havia visto pela última vez. Mesmo assim ele desejava intensamente a sua companhia; era como se uma vida inteira os separasse. Infelizmente, ele não tinha sido capaz de se expressar como devia quando ela estava cerca. Talvez tivesse sido essa a razão que a levara a partir: ele tinha-a aborrecido ao ponto de a levar a abandonar Heridamos! Sem dúvidas nenhuma, ele era muito melhor a espiralar palavras num pedaço de papel do que a dar voz aos seus pensamentos mais profundos.
          Talvez se enganasse, e um dia ela teria a opportunidade de ler os seus pensamentos e as suas preocupações sobre porque o vento é desprovido de cor, ou porque não parecia ter fim o rio Heridanus, prateado e zigzagueante (para ser sincero, nunca ouvira falar de ninguém que houvessse chegado até onde termina o rio, ou talvez o tivessem conseguido mas nunca regressaram para contar o feito...), ou a pergunta quase-taboo sobre porquê os Heridaneses vertiam tantas lágrimas ao avistar qualquer ser com asas, ou porque tanto ele como os seus co-cidadãos Heridaneses apenas conseguiam espiralar parlavras estando sobre o rio prateado, ou mesmo porque é que ele se sentia tão vazio agora que ela não andava por aí a importuná-lo com perguntas incessantes, que apenas faziam com que a ordem do mundo tal como ele a conhecia se desmoronasse...Bem, seria melhor parar com esta confusa cascada de pensamentos e começar a sua enésima carta para Kassandra.

 (Imaginem a carta escrita em forma de espiral e com uma letra tombada para a esquerda!)

          Minha querida Kassandra,

          Deduzo que não recebeste nenhuma das minhas cartas anteriores, senão seguramente que já teria recebido alguma espécie de resposta rabiscada da tua parte - rabiscos ou qualquer que seja a forma dos humanos registarem as palavras que guardam nas suas mentes.
          A minha vida agora está dividida em duas eras distintas: uma antes de te haver conhecido e esta agora depois de teres entrado na minha vida. Já não sou o mesmo Heridanês nem o mesmo Theo que fui outrora. Entraste na minha existência como um redemoinho de cheiros e conceitos frescos... Sim, cheiras ao cheiro de limpo e ao cheiro das papoilas escarlates que crescem nos campos doirados em ambos os lados do Rio Heridanus,
          Como lamento nunca ter pronunciado o teu nome! Sabes, nós os Heridaneses acreditamos que ao pronunciar o nome de outros seres, assimilamos parte da sua essência. E como ainda ninguém conseguiu calcular exactamente quanto espaço ocupa uma parte da nossa própria essência, receamos o que poderá acontecer se absorvermos parte da essência dos outros seres. Mas tu, Kassandra, és destemida e chamaste-me pelo meu nome tantas vezes, que talvez seja por isso que me encontre neste estado de caos vazio. Mesmo assim, sinto falta de ouvir a tua doce voz a chamar-me, Theo...Theo... 

Parte V
__________________________________ por Fernando Silva
          O MJK Mobile, atravessa suavemente o eixo Júpiter-Saturno. No interior da pequena (mas muito jeitosa) nave, o ambiente está bem mais tranquilo. Kassandra aproveita para dormir um pouco. Há mais de muito tempo que aquelas pestanas não se juntavam por mais de dois segundos seguidos. Juno e Mick, aproveitam também esta oportunidade para não dizerem nada um ao outro. Também há muito tempo, que não havia um minuto de silêncio a bordo…
          Passaram apenas quinze dias desde a visita ao Anel de Saturno… no porta-luvas, segue como recordação, uma pequena pedra... para enfeitar um anel. De lareiras, nunca mais se falou.
          Pelo veículo do espaço, reina a prioridade de não querer acordar a nova amiga e tripulante… primeiro, porque acabou de adormecer... e depois, porque se acordar... poderá monopolizar os discursos…! No fundo, é uma boa alma. A navegação solitária a que se obrigou durante tantos séculos é responsável por este “estar” diferente. Talvez um dia se porte como um ser normal, ou até quem sabe, como uma pessoa normal.
          Na parte da frente do cockpit, Juno faz sinais a Mick. De facto, uma poeira brilhante e colorida atravessa o cosmos. Sem querer acordar a passageira à retaguarda, Juno sussurra… tentando que a sua voz apenas “atinja” os ouvidos do velho companheiro:
          – Mick, olha… poeira musical…!
          – Poeira de música?!
          – Claro…! São sinais enviados de sistemas remotos… a música, pela qualidade dos sons e das composições, indicam-nos o nível de conhecimento e satisfação dos seus habitantes.
          – Hã?!...
          – Há (?????) pois… abre a carlinga Mick…
          – E se a Kassandra acordar?! Ainda só adormeceu há 14 dias… ela pediu para a deixarmos dormir dois meses, pelo menos…!
          – Talvez não acorde… olha as poeiras têm as tais cores que não existem no espectro solar…! São músicas de longe! Mick, abre, abre… vamos ouvir….
          A carlinga do cockpit abre-se lentamente. As poeiras vão atravessando o espaço… e o MJK dança entre a beleza da música e da cor. Sons divinais… composições e interpretações muito para além daquilo que se conhece. É o limite elevado à potência sem limite. Está muito para além do nosso conhecimento e até do nosso entendimento. É sumo concentrado de civilizações vários milió-mega-milénios luz mais antigas que a Terra. Tempo do tempo sem tempo… por ventura perfume de sociedades extintas, que, deixaram aos irmãos cósmicos, tudo o que de bom aprenderam durante a sua existência, sob a forma de cor e som.
          – Hummm…. Ahhh…… boomm diiiaaa …..!!!
          – Kassandra!?! (Mick)
          – Olá amiga…desculpa termos aberto o teto…mas não queríamos perder o momento… (…)
          – Ora, Juno! Não tem importância…ahhhhhhhhhh… uuuuuaaaauuuuuu….. há que séculos que não bocejava assim… que maravilha…!
          – Eu cá, também gosto muito de bocejar (…)
          – Não é isso Mick!!! Que maravilha… isto é música de Heredanus… esteve nos top’s do lado-claro… mais de 3 milhões de semanas…
          – Ahhhh… conheces, Kassandra?!
          – Quem não conhece?... Foi um estilo que eles aprenderam em Hydrus…
          – Hydrus?! (Juno)
          – Sim… o sistema da água… de lá veio a água para o mundo… e das cascatas… os primeiros sons. Do relfexo das estrelas na água, surgiram as primeiras cores…
          – Kassandra?!
          – Sim, Juninha?!
          – Conheces outras civilizações… ou só os Heri…(…)
          – Dianeses?!... Sabes, em Hydrus, já não há seres… o planeta está em repouso…
          – E enviaram as músicas aos outros!!! Acertei?
          – Yessss, Mick! Os seres dos três braços, depois de aprenderem a técnica, adaptaram-se rapidamente a tocar piano e guitarra… e hydrofone…
          – Mas deve ser fantástico tocar piano e guitarra com três mãos...! (Juno)
          – Nã…nã… é a mesma coisa … eles continuam com muitas dúvidas… só deixam de coçar a cabeça para folhear a pauta…!
          A comitiva continua a deliciosa expedição, aproveitando ao máximo as cores sonoras… ou os sons coloridos. O tempo vai passando… lentamente, mas vai passando.
          Seis meses depois, arredores de Neptuno. Centro de Distribuição de CICESA (Correspondência Inter Cósmica Enviada Sem Avisar)
          – Mick, meu Imediato… 120 graus a estibordo! Vamos passar pelo Centro e checkar se há alguém a enviar CECAC’s (Cartas Em Cápsulas Azul Clarinho)…!
          – É para já, meu comandante…! Nave em rumo…!
          – Olhem, que não é mal pensado! Digo eu que sou Kassandra…! Até pode ser que haja correspondência para alguém conhecido…!
          – Ou não…! Mas vamos… o céu é nosso...! Mick, activa o sistema de aproximação… estamos perto…! Kassandra tens alguma ideia de como isto funciona?! As cápsulas parecem doidas a ziguezaguear à volta de Neptuno!
          – Então é assim… vocês dizem o vosso nome…! Se houver uma CECAC dirigida para vocês, ela sai da órbita do Centro CICESA, e vem pousarno vosso ombro!
          – A sério…?! Só pelo nome, as cápsulas vêm… como quem conhece a voz?! (Mick)
          – Sim senhor, digo-vos eu que sou Kassandra!
          (vuuuuu….vvvuuuuu…. Vvvvuuuuuu…..)
          – Cuidado!!! Vem aí uma coisa Azul… cla cla clarinhp… (Mick)
          – Aiiii…! O que é isto?!.... (Kassandra)
          – Então disseste o teu nome, ahaha…. (Juno)
          – Hã… hã… mas quem pode ter… mandado… deixa abrir… ohhhhh, está a abrir sozinha… deixa-ver… oh… estou um pouco espantada… (…)
          – Queres que leia?! (Juno)
          – Se não te importares… é que eu ainda não recuperei… do choque… toma… (…)
          – Então diz aqui: “Minha querida Kassandra, deduzo que não recebeste… “ (…)
          – THEEEEOOOO !!! É o THEEEOOOO….!!!
          – Quem é esse…?! Quantos braços tem?!
          – Três, Mick… três lindos bracinhos… finalmente acordou!!!....
          – Estava a dormir quando vieste embora, Kassandra?! (Juno)
          – Já antes disso… já antes disso, amigos… a vida tem momentos fantásticos… mas por vezes esses momentos não dão com as idiossincrasias da vida… da vida…!
          – Da vida da vida?! (Mick)
          – Da vida… das muitas vidas… da vida toda à volta das vidas… dos conceitos e da razão que nos pode trazer períodos felizes… e que sempre teima em atrasar-se… digo eu que…(…)
          – ÉS KASSANDRA !!!

 Parte VI
____________________________________ por Paula
          – Que carta maravilhosa. Tinhas razão, Kassandra, ao dizeres que os Heridaneses são como vultos vaporosos. Esta carta é como um remoinho de emoções que te captiva pelo simples poder das suas palavras. Fiquei com pele de galinha só de a ler em voz alta. Vê só! – De facto, a pequena camada de pelos clarinhos que cobria os braços de Juno estavam todos eriçados, com energia cinética.
          Mick olhava para Juno de modo pensativo, como se estivesse a vê-la pela primeira vez. Não se lembrava da última vez que que a vira tão comovida por algo. Os seus olhos brilhavam de emoção. Aquelas eram lágrimas que bailavam nos seus olhos ou apenas o reflexo da luz das estrelas? Também se viu a questionar a normalmente jovial e alegre personalidade de Juno. Será que na realidade ela estava longe de estar contente com a sua vida? E que dizer da expressão agri-doce espalhada agora de repente pelo rosto de Kassandra? Não compreendia como uma mera corrente de palavras podia alterar o estado de espírito daquelas duas mulheres. É certo, ele tinha que dar a mão à palmatória e admitir que o tal tipo, Theo, tinha um jeito especial para as palavras...mas poderia igualmente ser o efeito vertiginoso da letra tombada para a esquerda e o texto escrito em espiral!
          Sentia-se pouco à vontade. As duas mulheres pareciam estar a partilhar um momento de diferentes percepções emocionais para o qual ele não havia sido convidado. Sentia-se negligenciado e excluido...decidiu ficar onde estava e observou como Juno e Kassandra partiam em direcções opostas.
          Com um sentimento de abandono, Mick virou a sua atenção para a poeira de música que já só se ouvia ao longe. O som era de uma beleza etérea e ele deixou-se levar pelo momento: as suas pálpebras pesadas começaram a fechar-se e o som depressa conseguiu captar a sua completa e exclusiva atenção. De imediato a sua essência viu-se transportada para um outro tempo, uma época em que ele era apenas um jovem rapaz, uma época em que havia falecido.
          Estava agora a flutuar, desapercebido, sobre um pequeno grupo de pessoas cabiz-baixas com pesar, cada uma segurando uma tulipa cor de malva nas mãos. É então que uma mulher, a sua mãe - a própria Kassandra! - começa, estoicamente, a recitar um poema:

Corre cais abaixo
sem demora
[o navio] já vai a caminho
com ele abordo

Corre cais abaixo
e despede-te do dia
em que o meu coração
ficou em terra

Corre em direcção ao
lago tão frio
onde o meu pequenino
atrás do seu barco de papel correu

Adeus meu amor!
Até ao dia em que nos
encontrarmos de novo -
Devo deixar-te partir

          ...e lançando a tulipa cor de malva para o lago, limpou a sua última lágrima. O resto do grupo segui-lhe o exemplo.
          Mick manteve os olhos cerrados por mais um tempo. O que é que acabara de acontecer? Será que tinha conseguido espreitar uma vida passada? Ou será que o que viu estava ainda para acontecer? Qualquer que tenha sido a experiência, ela tinha-o deixado surpreendentemente sereno e com a convicção de que nem o passado nem o futuro interessavam, desde que houvesse um sentimento de fechamento.
          No entanto, outras questões haviam sido levantadas e que não podiam ser ignoradas. A mulher, a mesma e única Kassandra, sua mãe nessa vida, havia cantado 'Até ao dia em que nos encontrarmos de novo'. Será que isto queria dizer que a essência das pessoas estão ligadas pelo tempo e pelo espaço? Será que os seres estão unidos na sua viagem de auto-conhecimento? (Recordava-se que, na sua carta, Theo também havia mencionado algo sobre a essência de cada indivíduo...) Que aconteceria quando a demanda pelo auto-conhecimento de cada um chegasse ao fim? A sua cabeça começava a latejar com tantas perguntas sem resposta, mas não havia tempo a perder. Havia algo mais que tinha que verificar...Mick dirigiu-se à parte de trás da nave, subiu uma escada em espiral e começou a vasculhar nas coisas que estavam no depósito onde guardava todos os objectos que havia recolhido pelos sítios por onde passara.
          – Ah, aqui está ele! Sem dúvida um objecto estranho!
          Mick apenas havia sido atraido pelo líquido prateado que o objecto continha, mas nunca havia sido capaz de descobrir o que era nem a utilidade que poderia ter.
          Momentos antes, ele havia tido a sagacidade de fazer a ligação do que Kassandra dissera sobre os Heridaneses e os seus hydrofones e este objecto em particular. Céus! Aqui estava um exemplo perfeito de serendipidade!
           Tinha que falar com Juno sobre isto tudo...e com Kassandra, também, naturalmente.

CONTINUA...

- COPYRIGHT/Registado no IGAC 

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27, Senha Azul - Fernando Silva :: ParaVenda.net

27, Senha Azul - Fernando Silva :: ParaVenda.net

Introdução
           “27, Senha Azul” é uma das minhas (muitas) histórias.
           São as memórias das vivências com gente fantástica… que de um rolo de arame fazia uma gaiola, do mundo do improviso, do desenrascanço e da camaradagem. Gente de humor fácil, quase sempre pobre e onde a maior riqueza estava no partilhar com os amigos uma merenda, elásticos para uma afunda, uma cana-da-índia para inventar uma cana de pesca ou um canário para fazer criação…
           São recordações do tempo em que pela mão do meu pai acompanhava todos os jogos do Atlético Marinhense, do tempo em que era jogador da equipa (campeã distrital) de infantis em ténis de mesa do Sport Lisboa e Marinha, e que aos sábados e domingos ajudava no bufete do campo da Ordem a fazer as químicas (groselha com água e ginja com gasosa), e a lavar os copos num fiozito de água. Era uma alegria!
           De vez em quando também ia ao Vale das Estrelas, acompanhar o Estrela do Mar. Era o desporto elevado ao mais puro amadorismo… onde os jogos eram apenas mais um motivo de interesse, em tardes inesquecíveis, onde ser árbitro era tão difícil como director-de-serviço, especialmente se o vinho não fosse grande coisa…! E quando a bola ia para a ribeira?! Lá saía a correr um suplente da equipa que estivesse a perder, agarrava no pau com a rede… e lá pescava a bola… enquanto os outros esperavam e bebiam mais uma águita…!
           Com 17 anos comecei a tocar num conjunto de baile, o Staccatus, com malta velha e madura… havia um que até já tinha 21 anos! O único problema, foi que a garagem do meu pai, - condição para que eu pudesse tocar no conjunto - ficava paredes meias com a casa da tia Aurora. A velha e magra senhora, apesar de se levantar às seis da manhã, depressa se habituou ao barulho. A mula dela é que não, e foi desfazendo o curral aos coices. No fim, lá negociámos, e prometemos tocar só até às onze (acho que nunca nos calámos antes da meia-noite, mas está bem…).
           Foi o tempo do rock, dos bailes de carnaval, das passagens de ano, dos arraiais, dos bailes de finalistas e duma nova fonte de receita: os comícios políticos.
           O Staccatus tinha um tema original. Chamava-se “Solidão” e tinha três tons. Era um slow do mais dengoso que se pode imaginar, mas a malta gostava…!
           Ensaiávamos todos os dias, muitas vezes com casa cheia. Quando já tínhamos alguma experiência, começávamos a aparecer com músicas novas. O Lino gravava o “Rock em Stock” no seu “Sharp” multifunções, e no dia seguinte já estávamos a tentar arranhar um êxito, mesmo antes de ser editado em Portugal. Foi assim que fizemos com o “Enola Gay”, que estreamos logo nesse fim-de-semana e devíamos ter repetido umas cinco vezes!
           Toquei noutros conjuntos… no Zarabatana, (que me custou a alcunha, visto ser um modo simples de distinguir os vários Fernandos que na altura jogavam hóquei no Sporting Clube Marinhense), no Arte & Manhas, e mais tarde no famosíssimo “Os 5 Napolitanos”, da Nazaré. Nos “5 Napolitanos” ganhava-se bem. Era um conjunto famoso e bem organizado, muito conhecido por ter bons músicos, e também por ser antigo… mais do que eu. Quando em 1983 fizemos uma fantástica digressão ao Canadá, eu era um puto com 21 anos e o conjunto já tinha 25.
           Como a agenda dos “Napolitanos” era demasiado cheia, obrigava-me a abandonar definitivamente o desporto federado. Na altura, optei por sair do conjunto e conseguir assim mais tempo para o hóquei em patins.
           Passado uns meses, o bichinho da música voltou a morder e convidei quatro amigos para um projecto de originais. Depois de muitas sugestões, a denominação da banda foi a votos: “Duques de Quibir” -2, “In-Extrémis” -2 e uma abstenção. Com toda a gente de olhos bem abertos, a decisão que prometia mudar o panorama europeu (quiçá mundial) da música rock, iria ser tomada por moeda ao ar! Caiu para o lado dos Duques.
           Em 1989, lá fomos de armas e bagagens para Lisboa rumo à gravação do primeiro (e único) LP. Fomos num domingo à tarde e regressamos na sexta-feira. Éramos nove, visto que os assistentes também tiraram férias para nos acompanhar “on estúdio”. Dormimos três em cada quarto, comemos benzinho e voltámos todos inchados com uma cassete na mão – era o master do álbum “Momentos”. No domingo à noite, fomos direitinhos à recém-criada Rádio Clube Marinhense, convidados (à força, mas com todo o gosto!) para o programa do Zé Filipe.
           A Rádio dava ainda os primeiros passos. Era pirata, mas muito estimada pelos colaboradores e pela generalidade da população marinhense. Curiosamente, estive na primeira hora deste projecto, convidado pelo seu fundador e principal entusiasta, o António Prazeres. O estúdio era em sua casa, e nos primeiros meses o cão não percebeu ou ninguém lhe explicou o que é que se estava ali a passar, com dezenas de entradas e saídas de gente nova pelo portão de chapa verde. O brilhante canídeo, cujo nome não me lembro, era com certeza o animal com mais tempo de antena nas rádios nacionais. Mais tarde, lá se arranjou um vidro para separar o estúdio da sala de espera, e os uivos e latidos deixaram de se ouvir.
           Não havia acontecimento cultural ou desportivo que não tivesse cobertura em directo pela rádio e pelos abnegados repórteres especiais. E foram tantos…! Cada um fazia o seu melhor, “Boa tarde, é uma da manhã!”, ou “acaba de passar um casal de aviões por cima do estádio municipal…”, são apenas duas pérolas, tiradas à sorte de um cesto rico, fantástico e colorido, numa época d’ouro em que todos davam o melhor de si e do seu tempo, em prol da comunidade e de uma menina bonita chamada “Rádio”.
           Há uns três anos, sem saber como, fui experimentando umas linhas… e escrevi umas setenta, oitenta páginas. Passado dois anos, voltei a pegar na história e só parei no fim.
           “27, Senha Azul”, é um texto que no início não teve qualquer intenção de ser um livro, mas como nem sempre a razão prevalece, a coisa deu nisto…!
           Espero que se divirtam tanto a ler esta saga, como eu me diverti enquanto a escrevia. É pura ficção, influenciada por um emaranhado de memória e recordações…

F. Silva